sábado, 20 de novembro de 2010

A resposta da lata de leite a Fernanda Young...




















Este texto foi escrito em resposta a Carta para a Lata de Leite que Fernanda Young publicou na revista Claudia.

Prezada Sra. Young,
Gostaria de agradecer a sua carta enderecada a mim. Nao eh sempre que recebo correspondencias tao cheias de elogios assim. Sabe como eh, os chefoes da multinacional que me fabrica nao permite muito contato alem do estritamente comercial. Entao, fiquei deveras surpresa em receber sua carta. Acho que passou despercebida pela seguranca.
Ao iniciar a leitura de sua carta, Sra Young, percebo que se dirigiu a mim como um ente querido, familiar e pessoal. No entanto, digo-lhe que minha natureza de produto comercial de uma multinacional nao me permite tal intimidade com os clientes. Nao que eu nao queira ou nao goste de ser tida como item basico nas casas ou nas mesas de cafe da manha, mas nao sou permitida isso para que nao crie vinculo ou (como os advogados da multinacional a qual pertenco dizem) nao tenha conflito de interesses. Sou na verdade um produto comercial criado por pessoas que visam um unico objetivo: o de fazer dinheiro as custas dos consumidores e nao com o "bem-estar" dos consumidores.
Ao ler em sua carta o seu descontentamento com o mais novo rotulo que apareceu nas minhas embalagens, fiquei surpresa ainda mais. Pensei comigo: como pode uma pessoa tao culta preferir ser enganada pelas propagandas cor de rosa de uma empresa que visa em primeiro lugar (se nao unico lugar) o lucro, em lugar de ter em suas maos as ferramentas necessarias para tomar uma decisao embasada em fatos e estudos cientificos? Fiquei confusa.
Eu, na verdade, imaginei que o rotulo obrigatorio pelo Ministerio da Saude que diz que meu produto nao eh proprio para consumo de criancas menores que 2 anos fosse colocar um basta na mentira que eh dita a meu respeito por tanto tempo. Veja bem, eu tenho em minha formulacao varios ingredientes que sao bons e necessarios. No entanto, nao para um bebe tao pequeno que precisa de imunidade contra tantas doencas que existem. Essa imunidade soh pode ser adquirida pelo leite materno, e nao pode ser formulada em laboratorio.
Outra coisa que me deixou confusa em sua carta foi que a senhora disse me conhecer em sua mesa de cafe da manha. Bem, nisso eu sou usada ateh hoje e eh para esse fim exatamente que eu sirvo. Eu sou complemento para criancas acima de 2 anos e adultos. Sou muitas vezes confundida com outro produto (que tambem nao substitui o leite materno), a formula criada pela mesma empresa lah por 1860. Essa formula foi criada para auxiliar maes que nao podiam amamentar por alguma razao. Historicamente, existiam algumas maes nao podiam amamentar por deficiencia em suas dietas que impediam a producao de leite. A primeira formula lactea para bebes foi criada em 1869 na Suica. Ela consistia de bicarbonato de potassio, farinha de trigo e cevada. Deveria ser misturada ao leite de vaca. Nao nego que o uso desse complemento garantiu que muitos bebes nao morressem ou fossem vitimas de mal-nutricao durante os primeiros anos de vida.
No entanto, as empresas que nos criaram (tanto a mim quanto a formula) viram nisso um grande mercado. Entao passaram a fazer propagandas enganosas, dizendo a maes perfeitamente saudaveis que elas nao tinham leite para alimentar seus filhos, ou ateh que elas nao precisavam se sacrificar tanto. Uma falsa ideia de que o leite da latinha (ou seja o meu leite) era melhor que o leite materno foi brilhantemente incutida na cabeca das maes por geracoes a fio. As maes saiam das maternidades com suas latinhas reluzindo ao sol enquanto seus organismos lutavam contra o que seria o natural. Elas davam mamadeiras cheias de formulas sinteticamente produzidas em laboratorio enquanto seus seios endureciam, empedravam e secavam.
Entao, Sra. Young, quando meus criadores nas multinacionais foram obrigados a relatar em meu rotulo minha real composicao e o grupo a que sou destinada, eu fiquei muito feliz. Enfim nao vou ser mais usada como subterfugio de marketing para enriquecer apenas alguns em detrimento de tantas maes e bebes nesse mundo. Enfim, vou ser comprada pelo que sou.
Nao conheco as criancas de 2 anos a que se refere em sua carta, e sinceramente imagino que elas nem existam em realidade. Conheco apenas aqueles bebezinhos tao frageis e indefesos que fazem propaganda sobre mim. Esses bebezinhos aparecem gordinhos, mas se voce for tocar na sua pele, ela nao tem a mesma firmeza que se espera. Esses bebes ficam doentes com maior frequencia porque nao receberam enquanto bebes a dose necessaria do agente imunologico mais potente do mundo: o leite materno. As criancas de 2 ou 3 anos a que se refere jah podem, se assim quiserem, tomar um copo do meu leite. No entanto, se elas preferirem o leitinho da mamae delas, eu nao fico ofendida. Elas terao a vida toda para me experimentar. Sei que vao gostar do meu gosto, mas prefiro que seja na hora certa.
Atenciosamente,
Lata de Leite em Po.

O texto que originou essa resposta encontra-se abaixo:

Cara Lata de Leite,

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Desculpe a intimidade de escrever uma carta assim, tão sincera, mas sinto como se fôssemos parentes. Minha mãe é Leite, e meu nome de solteira é Fernanda Maria Leite Young. Além disso, convivo com você há mais tempo do que com qualquer outra coisa, vendo-a todo dia, desde pequena, sempre igual, em minha mesa de café-da-manhã. Ajo, portanto, movida pelo coração. Temendo, por isso mesmo, ser mal compreendida.

O motivo desta carta é que notei, outro dia, algo diferente em você. Um retângulo. Com um texto em que o Ministério da Saúde adverte que você não é boa para crianças. E que as mães devem amamentar seus filhos até os 2 anos de idade, no mínimo, se possível até mais. Confesso, fiquei confusa. Sei que você deve ter sido obrigada a concordar em colocar aquilo ali, mas por acaso você conhece as crianças de 2 anos de hoje em dia? São bastante diferentes daquelas do nosso tempo, querida Lata. Boa parte delas já está freqüentando colégios. Algumas, com 3 anos, fazem cursos de inglês, natação, balé e até computação. Claro, estou falando das crianças de famílias da classe média urbana. Mas é para essas famílias que vocês, latas de leite, são destinadas, correto? Então, imagine comigo: o garotinho chega do curso de computação, joga um pouco de videogame; aí a mãe volta do trabalho e ele vai chupar os peitos dela. Ou: a garotinha chega do balé e telefona para uma amiga marcando de ir ver um filme na casa dela assim que acabar de mamar na mãe.

Será que isso é realmente melhor para a saúde dessas crianças? Será que ter uma mente sã não é tão importante quanto ter um corpo são? Será que as deficiências do leite em pó com relação ao leite materno não seriam menos perigosas que os riscos de trauma psicológico? Não sei responder. Mas sei que amamentei minhas filhas até os 3 meses e me senti um traste quando parei. Porque todos me diziam que era melhor continuar - apesar de eu estar exaurida, com os peitos estuporados e a mente desnorteada pelas transformações trazidas pela maternidade. Todos, menos o meu marido, que me apoiou na decisão dizendo que achava muito mais importante, para as meninas, ter uma mãe segura e feliz do que qualquer benefício que o aleitamento pudesse trazer.

Sei que muita gente me execraria pelo conteúdo desta carta, por isso mando-a só para você, amiga Lata, contando com a sua discrição. Tenho certeza de que você entenderá o que estou tentando dizer. Que não estou fazendo campanha contra o leite materno nem a favor das multinacionais. Que estou apenas tentando propor uma nova visão sobre uma antiga verdade. Para que outras mães não venham a sofrer com tanta culpa. E para que outras crianças não venham a sofrer com tantas mães que, depois de passarem 20 ou 30 anos de sua vida consumindo porcarias, são levadas a crer que seus seios são fontes de pureza.

4 comentários:

Mamãe Larissa disse...

Muuuuuuuuuuuuuuuito bom!!! Maravilhosa a carta da Lata de Leite! Amei!!!! Posso linkar no blog Coisinhas de mãe, na postagem que fiz sobre isso?

Bjs!

Carol, Nando e André disse...

Fantástico Dani! Vamos desmistificar a verdadeira cara da Lata de Leite! Leite de vaca é para bezerro!

Carol disse...

Triste somos nós mães que não pudemos amamentar nossos filhos e somos castigadas pela sociedade, sempre nos dizendo que nossos filhos não terão saúde como aqueles que tiveram o leite materno...o que também é uma grande mentira!
Ninguém pensa como é frustante para a mãe que quer amamentar e tem seu filho numa UTI ou simplesmente não tem leite... Mesmo assim, as pessoas dizem que não seremos capazes de oferecer carinho suficiente, nem alimento tampouco o vínculo mãe e filho...Alguém já pensou como é ouvir isso??

Só para refletir...
Abraço

DaniSapoo disse...

Carol,
Eu ouvia que nao deveria desistir de amamentar meu filho, que era uma besteira e que tinha que largar de ser teimosa.
Agora a minha pergunta: voce realmente acredita que as maes que nao amamentam seus filhos sao, hoje em dia, castigadas pela sociedade? Por qual sociedade, exatamente? Pergunto isso porque a coisa mais comum do mundo eh ver maes saudaveis e totalmente capazes de amamentar seus filhos optando por leites artificiais porque "nao aguentam mais", "o bebe estah com fome" e outros mitos que seguem. Esse problema de uma mae que tem o filho na UTI comeca no hospital, pois no proprio hospital eles jah oferecem o complemento (muitas vezes sem ao menos perguntar para a mae).
Eu acredito que existam mulheres que nao sejam realmente capazes de amamentar seus filhos por questoes bem especificas. No entanto, a sociedade (que coloca mamadeira como um dos itens fundamentais para a maternidade) nao condena. Acredito que eh ao contrario. A sociedade afirma que amamentar eh realmente muito dificil e que sao poucas as mulheres que conseguem. No entanto, isso nao poderia estar mais longe da verdade.
Amamentar eh facil? Nao. Eh impossivel? Nao mesmo! Amamentar requer compromisso. E eh esse um dos maiores problemas que eu vejo.
Quanto ao leite materno proporcionar mais saude, porque voce diz que eh mentira?