sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sinceridade de Crianca...

Crianca nao mente, e as que o fazem de forma maliciosa (que nao seja devido a grande imaginacao que tem) aprenderam com algum adulto... Eis uma prova:
Kiyo estava ontem no parque de costume com o pai, depois de uma manha na escola, quando comecou a chover. Kiyo e o papai foram para debaixo de uma area coberta onde duas mulheres faziam um lanche. Quando parou a chuva, Jeff e Kiyo estavam voltando para o playground. De repente, uma das mulheres levantou-se e soltou um pum alto (devia ser daqueles que deixam a gente com vontade de abrir um buraco no chao e sumir do mundo). Kiyo, que nao eh nada surdo e aparentemente nao tem "tato" algum nesses momentos, imediatamente olhou para tras, franziu a testa e abanou o nariz enquanto olhava fixamente para a mulher.
Jeff queria sumir naquele instante, e por isso nao olhou para verificar a expressao da mulher "gasosa".
E assim eh... quando perguntei ao Kiyo porque ele havia feito aquilo, ele simplesmente respondeu: "mas mamae, ela tinha mesmo soltado um pum." E aih, vai dizer o que pra criaturinha???

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ser humano...


Uma discussao apresentada no blog Mamiferas (que acompanho diariamente) falando sobre "direitos humanos" me fez pensar sobre o uso de termos como "humanidade" e "natureza humana". E tambem me fez pensar em o que estou ensinando meu filho acerca dessa confusao que esses termos podem significar. O texto em si nao foi a questao. Alias, acho que o texto trata de um tabu social e cultural muito grande: o direito de presidiarias parturientes de serem tratadas de acordo com as diretrizes dos direitos humanos. Nao vou entrar no merito dessa questao aqui, mas a discussao que o texto gerou me fez pensar se realmente ter humanidade eh sinonimo de ter respeito e preocupacao com o proximo.
Se pensarmos bem, humanidade eh um jargao utilizado por muitas pessoas para qualificar um comportamento. Se a pessoa estah "agindo com humanidade", assume-se que ela no minimo respeite o proximo. Na verdade, humanidade refere-se a condicao humana ou natureza humana que faz parte de todos os seres da especie Homo sapiens sapiens. Entao como podemos atribuir uma conotacao positiva a uma condicao como a nossa, que tem seus pormenores assim como o "instinto animal"? E o proprio instinto animal tambem nao tem suas nuances mais "humanas"? Sentimentos e atitudes como raiva, nojo, repudio, inveja, arrogancia, mesquinharia, discriminacao, revanche, vinganca, preconceito sao tipicamente atribuidos a seres humanos. No entanto, os mesmos nao sao qualificados como "atitudes humanas" ou "sentimentos mais humanos". Apenas atitudes de solidariedade, respeito mutuo, cordialidade, empatia sao constantemente associados com o termo "humano" ou "humanidade". E assim, a atitude segue rotulada sem atribuir a mesma o significado real que lhe cabe. Acreditar que o "humano" eh apenas o bom, o solidario, o respeitador, eh ter uma visao miope da nossa propria condicao. Isso a gente ve em filmes (fraquinhos) ou novelas onde o mocinho sempre eh bonzinho e o vilao eh o capeta. Na vida mesmo, as pessoas (nos todos na verdade) tem momentos de mocinhos e de bandidos.
Na criacao dos filhos, eh preciso deixar claro que essas facetas da humanidade existem. A gente aprende diariamente isso quando descobrimos que "aquele grupo social" que parecia ser acima de qualquer suspeita de repente nao eh tao "direitinho" assim. E para uma crianca, que muitas vezes entende a coisa muito preto-no-branco, fica complicado de perceber essas nuances.
Eh muito complicado, depois de tanto tempo imersa nessa ideia de que agir humanamente eh agir com compaixao, pensando no bem do proximo, conseguir me despir desses jargoes. E quando tento explicar ao Kiyo atitudes que nao sao legais, fica cada vez mais complicado nao recorrer aos mesmos. Principalmente quando os "instintos" sao muitas vezes muito mais logicos e sensiveis a realidade dele do que o raciocinio "humano". Eu acho que agir de maneira solidaria, empatica e respeitosa com alguem eh um ensinamento que se passa de geracao a geracao a partir de exemplos vividos.
Justifica-se a falta de respeito ao individuo porque este nao cumpriu com as leis estabelecidas pela sociedade (afinal, se foi preso, tem mais que se ferrar), mas continua-se "dando o jeitinho" para conseguir pagar menos imposto, ou para tirar nota na prova, ou ateh para nao precisar lidar com alguem. Nao ha menos ou mais humanidade no olhar do bandido que vai roubar a casa de alguem a mao armada que no olhar do medico que insiste em tratamentos carissimos, levando familias inteiras a dar tudo que tem na ilusao de salvar a vida de alguem que estah em estado terminal. A atitude de alguem que rouba comida para dar aos filhos que passam fome nao eh menos nem mais humana que a atitude do politico que mente descaradamente ano apos ano, tirando o que eh do povo em beneficio proprio. Todos sao humanos. Essa eh a realidade. O uso do termo "humano" para significar justo, empatico, solidario e respeitoso eh uma falacia, pois o ser humano eh cheio de raivas, odios, preconceitos, vingancas, invejas... Entao, usemos "agir com humanidade" ou ser "humano" para indicar toda a condicao humana. Senao, corremos o risco de cair no erro de ensinar aos nossos filhos que ha no mundo pessoas que nunca cometem erro, e essas sim sao "humanas"!
E como disse Jesus: "quem nao tiver pecado algum, que atire a primeira pedra!"

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Medos e cuidados e culpas...



Durante os 4 anos e 8 meses do Kiyo, eu posso dizer que estou ainda aprendendo a lidar com esse tsunami emocional que toma conta de mim quando o Kiyo se machuca, fica doente, ou simplesmente estah tristinho sem motivo aparente. Depois do episodio que nos levou para o hospital (esse aqui), eu achei que estava dando conta desses sustos maternos. Teve um dia que o Kiyo caiu e bateu a cabeca, e eu dei conta do recado de forma bem legal e tranquila. Teve outra vez que (quando o Jeff foi parar no hospital) o Kiyo passou mal e vomitou jatos. Eu estava sozinha e consegui dar conta tambem. Logico que fiquei com medo, assustada e preocupadissima, mas na pratica eu dei conta do recado. Tudo ia muito bem quando de repente...
Ha uns 15 dias atras estavamos todos em casa. Era feriado do Martin Luther King Jr, mas Jeff e eu estavamos finalizando algumas atividades academicas. Kiyo, como sempre, correndo pra cima e pra baixo, falando sem parar... Ele escutou a vizinha do andar de cima saindo de casa e disse: "Mamae, eu vou dar oi pra Joanna". Eu disse que tudo bem, mas que era para ele voltar logo e nao ficar andando pra cima e pra baixo. *Nos nao somos aqueles pais super protetores que nao deixam o filho dar um passo sozinho. Kiyo aprendeu desde cedo que nao pode ir na rua sozinho e nao pode sair de perto da gente em locais publicos. Fora alguns episodios de se "perder" em lojas (porque estah brincando e se distrai), nunca tivemos problemas quanto a isso. Se ele queria andar de bike, nao viamos mal algum em deixa-lo andar na varanda do predio enquanto eu fazia janta. Ou se ele pedia para conversar com uma vizinha, nao viamos problema em deixa-lo a vontade.*
Ele foi ateh a porta do apartamento dela e ficou um tempinho conversando com a vizinha. De repente escutamos um barulho horrivel que tremeu o predio todo. A vizinha deu um grito. Jeff saiu correndo e eu senti aquele buraco no meu coracao se abrindo. Corri pra fora. O Kiyo estava bem. Nao tinha sido nada com ele. A outra vizinha havia torcido o peh e caiu de cara no pavimento. Depois que tudo passou, fiquei me sentindo horrivel pela cara de alivio que devo ter feito ao constatar que nao era o Kiyo que havia despencado da escada ou (pior) do segundo andar. Fiquei tremendo por um bom tempo. Pensei, e se o Kiyo tivesse caido? O que a gente faria??? Gracas a Deus que nao foi e que a vizinha que caiu nao se machucou muito seriamente.
Depois de 15 dias, quando eu me lembro daquele barulho horrivel, abre em meu coracao aquele buraco novamente. Uma angustia tsunamica me domina e eu soh consigo abracar o Kiyo e dizer que o amo. Nao preciso nem dizer que depois dessa nao deixamos o Kiyo ir na varanda sem estar monitorado. Nao viamos mal algum antes, mas percebemos que o perigo eh maior do que a gente imaginava. Ele eh um menino aventureiro e cheio de energia. Ele adora subir nas coisas, pular e tal. Ainda nao tem discernimento para diferenciar um lugar perigoso de outro que nao seja. Os vizinhos aqui sao muito legais. Talvez por isso que eramos tao tranquilos com deixar o Kiyo brincar na varanda e ficar apenas com os ouvidos atentos. No entanto, percebemos que eh importante manter os olhos atentos quando se tem um menininho serelepe por volta.
Nao sei porque o buraco insiste em se alojar dentro de mim cada vez que lembro do incidente com a vizinha. Nada aconteceu com o Kiyo. Ele estah lah inteirinho dormindo no quarto com o Jeff, e meu coracao (soh de lembrar disso) jah estah miudo. Acho que esse buraco tem a ver com a sensacao de culpa que me abateu na hora que ouvi o tombo da vizinha. Se tivesse sido o Kiyo, a culpa seria toda minha e do Jeff por nao estar com ele, cuidando para que nao houvessem perigos eminentes. Logico que a nossa presenca nao diminui em nada as chances dele se machucar mais seriamente. Afinal de contas, criancas sao criancas.
A mim, como mae, resta apenas cuidar. Cuidar para nao me paralizar pelo medo. Preciso cuidar para que situacoes como essa nao diminuam a minha certeza de ser a melhor mae que o Kiyo poderia ter. E cuidar principalmente para nao permitir que o meu medo e sentimento de culpa sejam agentes podadores da liberdade e autenticidade do Kiyo.
E quando esse buraco aparecer novamente ardendo dentro do meu peito, que eu consiga transforma-lo em forca para dissipar o medo daquilo que nem aconteceu.