segunda-feira, 11 de junho de 2012

Criança com temperamento forte X Criança indisciplinada...


Kiyo sempre teve um temperamento forte. Desde bebezinho ele tem uma carinha "preparada". Ele não é (nem nunca foi) uma criança indisciplinada. Desde sempre a gente se vê comendo um dobrado com ele em relação a educação e comportamento. Nosso "segredo" sempre foi a consistência e a cumplicidade entre nós (eu e o meu marido).
Esses dias, estávamos conversando com alguns amigos sobre exatamente isso: usar o "temperamento forte" como desculpa para falta de respeito e indisciplina dos filhos. Uma coisa é a criança ter o temperamento forte, outra bem diferente é ela ser indisciplinada e sem limites. Não sei da onde que se tiram a idéia que uma criança com temperamento forte será (invariavelmente) indisciplinada e taxada "difícil". Todas as crianças podem aprender desde muito cedo a como se comportar em situações sociais, em grupos com outras crianças ou mesmo com grupos de adultos. Basta que os pais (sim, a culpa é dos pais) tirem o tempo necessário para ensiná-los. E para isso não é preciso "mostrar o chinelo, bater, ameaçar, gritar, se jogar no chão, espernear...". Para que a criança saiba os seus limites em situações sociais, é preciso praticar isso no local onde ela se sinta segura: EM CASA! E se EM CASA não há consistência sobre o que pode e o que não pode, se um dos pais fala A e o outro diz que é B, e se em casa a criança não tem os seus sentimentos respeitados... fora dela a coisa acontecerá exatamente da mesma forma. Só que fora de casa, parece que a situação se amplia de forma exponencial e fica totalmente fora de controle.
Exceto em casos específicos de extrema canseira, fome ou as duas, Kiyo sempre se comportou bem em locais públicos. Nunca foi de ficar pedindo coisas e sempre entendeu (relativamente bem para a idade) que não significa não. Quando ele saía com outras pessoas (por exemplo, minha mãe que veio visitar no ano passado), o relato de comportamento sempre era exemplar: tudo que uma mãe ama ouvir de seu filho.
Quando começou na escola, percebemos que teríamos que fazer uma marcação mais cerrada no quesito comportamento. Ele passou a imitar os "maus" comportamentos de seus colegas. Não só com os da escola... se algum coleguinha de parquinho começa a fazer birra ou a brigar com os demais, o comportamento é devidamente assimilado. É incrível como a mentalidade de rebanho toma conta. De repente, com a "tchurma", Kiyo acha que pode desafiar e agir com desrespeito. E em casa, os problemas de comportamento se ampliam. Agora ele deu para experimentar respostas "mal-criadas". Observamos que esse comportamento aumenta quando ele brinca com determinadas crianças no parque ou na escola. Então corrigimos o comportamento (tanto em casa quanto na rua). Não deixamos para "quando chegar em casa", pois ele não compreenderá porque está sendo corrigido. E tudo isso sem bater e (quase nunca) sem erguer a voz.
De forma geral, Kiyo ouve o que a gente fala. E não é que ele não possa expressar suas frustrações, muito pelo contrário. Sempre garantimos a ele o direito de expressão. O que a gente não admite é falta de respeito. E falar com pai, mãe, vô, vó, tio, tia, primo ou quem quer que seja de forma desrespeitosa ou com demandas é  inaceitável.
Nós não recorremos ao tapa para corrigir essas falhas, mas agimos de forma consistente. Explicamos que o comportamento não é aceitável sem usar palavras "infantilizadas". Ele entende bem o nosso vocabulário e já o usa de forma correta também.
No entanto, os comportamentos inadequados se mostram mais frequentes à medida que ele cresce e explora novos horizontes. Ele capta todas as novas birras, acessa como os coleguinhas conseguem aquilo que querem dos pais, e tenta usá-las para atingir seus objetivos. E é aí que entra a consistência. Quando eu falo algo, o meu marido não des-fala (e vice-versa). Ele nos vê como parceiros, amigos e companheiros (que sim, às vezes se desentendem, mas que no geral vivem em harmonia).
Esses dias, enquanto estávamos no Brasil, Kiyo se mostrou bem desafiador. Ele questionava TUDO, rebatia TUDO... se a gente o chamava ou pedia que ele fizesse algo (como ajudar na hora de trocar a roupa), ele se fazia de surdo... se era contrariado, emburrava e aí ficava batendo o pé... enfim, foi um teste de fogo!
Em uma dessas vezes que eu tive que chamar sua atenção pois ele estava sendo rude com a prima, ele me solta: "Eu não tenho medo de você!". Eu respirei fundo, e disse: "Que bom! A mamãe não quer que você tenha medo dela." Nessa hora, os olhinhos dele dobraram de tamanho. Acho que ele não esperava esta resposta. E eu continuei: "Não quero isso, Kiyo. A mamãe te ama! MAS você não pode desrespeitar a mamãe. Não ouvir quando a mamãe chama. E ser rude com ninguém. Então, você precisa pensar sobre a maneira que é legal de se comportar. Quando você lembrar como é, aí você pode vir conversar de novo comigo. OK?" E deixei ele quietinho no banco enquanto eu preparava o prato dele. Não deu 5 minutos, e ele veio conversar comigo, num tom totalmente diferente do inicial.
É difícil lembrar para não explodir na hora. É difícil não erguer a mão e dar um "cala-te boca" ou um "para-te quieto" tradicional. Mas quando o nosso próprio comportamento é repetido pelos nossos filhos e (pior) em locais públicos e com pessoas diferentes, precisamos nós desse tempo para pensar na forma legal de se comportar! Rotular um comportamento aprendido como sendo parte do "caráter" da criança é errado e totalmente fora de lugar.



2 comentários:

suzysantos disse...

Genial, Dani! Assino onde? ;-)))
Acredito piamente que crianças que crescem vítimas tanto de prepotência quanto de violência são um perigo social. É imprescindível ensinar a respeitar e isso só se ensina respeitando.beijão e parabéns por contribuir para a diminuição das "ogrices" na sociedade.

DaniSapoo disse...

Suzy... importantissimo fazer isso, nao eh? E ensinar que comportamentos inadequados nao devem ser tolerados mesmo com "temperamento forte" tambem eh importante... Beijao e obrigada pelo comentario!