sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sobre os perigos do mundo: estamos preparados para enfrentar o lobo-mau?

Não sou do tipo de mãe que "cria os filhos numa redoma de vidro". Acredito que o desenvolvimento do meu filho depende sim dele explorar e experimentar coisas novas, aventuras e desafios que o levem além de seus próprios limites. Como disse no post anterior, é importante que ele tenha as ferramentas necessárias para atingir e expandir seus potenciais.
No entanto, vivemos num mundo onde existem perigos inerentes à vida urbana. Somos bombardeados diariamente com notícias de desgraças. E o pior tipo delas são as que poderiam ser evitadas: as que são provocadas por alguém com intenção de ferir, atingir, machucar ou tirar vantagem de alguém. Como é que eu posso preparar o meu filho para situações reais de perigo sem criar nele medos desnecessários, fobias irracionais? Gosto muito que ele converse com os vizinhos e que ele inicie uma conversa no parquinho. No entanto, como posso ensiná-lo que existem pessoas que fazem mal SIM. Como ensiná-lo que o "lobo mau" muitas vezes vem vestido de ovelha inocente?


Então fui confrontada com essa pergunta e esse dilema algumas vezes.
Primeiro, morávamos ainda no Brasil. Kiyo ia sempre com a Ana na mercearia "visitar" nossos amigos donos do estabelecimento durante a tarde enquanto a gente trabalhava. Num sábado pela manhã, a Ana veio lá em casa pálida feito um papel. Disse que a mercearia havia sido assaltada (a mão armada) e que ela (Ana) estava lá dentro. O dono da mercearia nos disse que já era a terceira vez no mês que acontecia aquilo. Naquele momento eu pensei: e se o Kiyo tivesse junto com ela? E como deixá-lo ir ao parquinho na esquina se era em frente a um boteco/inferninho/ponto de drogas? Na época, como ele era pequeno ainda e dificilmente entenderia qualquer explicação a respeito, eu simplesmente não o levava nos parquinhos e só ia de passagem na mercearia. 
Segunda vez: ainda no Brasil... Uma amiga minha, mãe de um menino da mesma idade do Kiyo, contou no nosso grupo de mães que estava numa farmácia na cidade em que mora com os dois filhos (o menino de uns 2 anos e a menina bebê de alguns meses). O menino andava pela farmácia, contando a ela quais produtos ele estava vendo. De repente, a voz do menino desapareceu. Ela começou a gritar por ele. E foram encontrá-lo já do lado de fora da farmácia em cima de uma moto ligada com o motoqueiro prestes a arrancar. Nesse dia eu sentei com o Kiyo em casa e falei para ele NUNCA ir com gente estranha. Nessa época, Kiyo era muito "sociável" e não tinha receio algum de dar a mãozinha a quem quer que fosse. Meu coração saiu pela boca quando soube da história. Coloquei-me no lugar da minha amiga e fiquei sonhando por semanas com situações similares.
Terceira vez: já aqui nos EUA. Tínhamos comprado duas bikes para darmos nossas voltas. Morando aqui há 1 ano e meio, a gente acostuma com a sensação de segurança que se tem. As casas não são trancadas a sete chaves, com muro alto, cerca elétrica e cão de guarda. Crianças vão com suas mães aos parquinhos, sem medo de assaltos à mão armada. As notícias de crimes contra o indivíduo são coisas que acontecem lá longe em guetos e (se não estamos nos ditos grupos de risco) dificilmente seremos vítimas. Nosso prédio é deveras seguro, tanto que deixamos as bikes destrancadas (apenas encostadas na escada) por 1 ano e nunca aconteceu nada. Até que então o filho da vizinha (aborrecente viciado em drogas - cuja mãe também não é um poço de pureza e bom exemplo) resolveu passar uns dias por aqui. Ele e seus colegas levaram nossas duas bikes. Na manhã seguinte, o Kiyo ficou desconsolado pelo roubo das bikes. E então tivemos que explicar que existem pessoas que fazem isso: levam aquilo que não lhes pertence. 
Quarta vez: estávamos em Maringá (eu e Kiyo) visitando minha avó, tia, tio e primos. Como na casa da vó não tem criança, e os primos já são todos grandes, fui levar o Kiyo no parque da cidade (o famoso Parque do Ingá) numa tarde após o lanche da tarde para que ele gastasse as energias e dormisse bem à noite. Não pensei muito sobre segurança já que eu sempre faço isso aqui nos EUA. Esqueci que são países diferentes com realidades de segurança pública bem diferentes. Encontramos o parque fechado, mas do lado de fora haviam aqueles aparelhos de exercício para a terceira idade. Resolvi deixar o Kiyo brincar ali mesmo. Ao atravessar a rua (em direção ao parque), percebo dois meninos em idade escolar mexendo em um pacote de forma bastante suspeita. Eles pareciam cheirar o conteúdo do pacote e passar de um para o outro. Ao lado deles estava um homem jovem (adulto). No que ele nos viu, já se levantou e foi para um dos aparelhos (acompanhando com os olhos para onde a gente estava). Como era dia, a rua era movimentada e outras pessoas estavam ali também, não dei muita atenção (mas fiquei de olho sim). Percebi que o cara ia sempre nos aparelhos próximos de onde o Kiyo estava. Então fiquei feito uma leoa em volta do meu leãozinho. Quando eu falei pro Kiyo que era hora de ir, levantei, peguei-o pela mão e me dirigi à calçada, o tal cara levantou no mesmo instante e foi atrás de mim. Quando eu digo atrás, é porque era atrás mesmo. Dava para sentir a respiração do cidadão. Eu me virei, olhei bem na cara dele, segurei bem firme na mão do Kiyo e apressei o passo. Fui para o lado onde tinha mais gente e o cara "desistiu". Fiquei gelada, meu coração disparou e minha perna bambeou. No caminho ainda, enquanto eu olhava pra trás para ver se não estávamos sendo seguidos, eu expliquei pro Kiyo que existem pessoas malvadas no mundo que querem só fazer maldades com a gente. Expliquei que não era para ele NUNCA aceitar nada de ninguém estranho (ou até conhecido) sem que a gente soubesse. Expliquei que se alguém o pegar no colo (sem ser a gente - mamãe, papai, vovó, vovô, titios e titias que são conhecidos e que o amam de verdade) é para ele gritar bem alto, chutar e bater os braços. E nunca ir com alguém que não seja a gente. 
Pronto. Não sei se fiz certo em dizer essas coisas a um menino tão novo. Não sei se fiz certo em alarmá-lo sobre a realidade em que vivemos. Só sei que meu coração de mãe ficou pequeno com a possibilidade de algum mal acontecer ao meu pequeno. 

Afinal, qual é a melhor forma de nos prepararmos para enfrentrar os "lobos maus" que encontramos por aí. E como reconhecê-los? Como preparar nossos filhos para saber quando a situação é perigosa??? 

Kiyo continua desafiando seus limites. Vive no mundo, e sabe muito bem dos perigos que o cercam. Ele nao vive dentro de uma bolha. E é exatamente por isso que não pintamos para ele uma falsa imagem de segurança. E assim seguimos: sem medos irracionais, apenas com cautela onde o perigo realmente habita.

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