sexta-feira, 13 de julho de 2012

O que você quer ser quando crescer? Que tal ser criança primeiro?


Lembro bem quando esta pergunta foi dirigida a mim, que na época tinha 6-7 anos. E lembro melhor ainda da minha resposta. Olhei bem nos olhos do meu interlocutor e respondi com orgulho: "Eu vou ser professora!". Quando a pessoa tentou me corrigir dizendo que professor não ganhava bem, eu respondi sem pestanejar: "Eu não quero ser professora por causa do dinheiro. Eu quero ser professora porque eu gosto." Com o tempo, minhas escolhas mudaram. Quis ser escritora, jornalista, publicitária, psicóloga, médica... Tornei-me bióloga, pesquisadora, educadora ambiental e (quem diria - ainda bem que a vida dá voltas) professora. Não, a realidade de um professor aqui nos EUA não é diferente da realidade de um professor no Brasil (considerando os devidos padrões, é claro). Aqui, um professor ainda ganha pouco e trabalha muito. É um profissional pouco reconhecido e muito exigido. É preciso mesmo ter o dom de ensinar para ser professor, pois é muito fácil esquecer o compromisso real e fazer foco apenas na parte ruim. Hoje eu quero SER PROFESSORA. 
Quando olhei no calendário de atividades programadas pela colônia de férias do Kiyo, vi que hoje (sexta-feira, 13 de julho) seria o dia dedicado à carreira futura / profissão. E a tal pergunta voltou a fazer parte dos meus pensamentos: "O que meu filho quer ser quando crescer?" Perguntei a ele, que prontamente me respondeu: "I want to be Spiderman" (eu quero ser o Homem Aranha). Expliquei a ele que uma profissão é diferente de ser "super herói". Que o próprio Peter Parker tinha uma profissão. Ele é sim o Homem Aranha, mas esse é o seu super poder. E que ele trabalha em um jornal como fotógrafo e repórter. Daí contei para ele o que cada uma das pessoas que ele conhece fazem como profissão. Expliquei, do meu jeito, que eu sou mãe (meu super poder), mas que minha profissão é pesquisadora-professora. 
Então ele teve uma idéia: "Mamãe, eu vou ser um doutor de animais." E eu perguntei: "você quer ser um doutor que estuda animais (como o Dr. Wetterer - meu orientador que ele conhece bem) ou você quer ser um doutor que cuida de animais?" E ele: "um doutor que cuida de animais." E eu: "Ah, você quer ser um vet." E ele: "Sim, eu quero ser um VET!". E assim dormimos a noite. Hoje pela manhã, peguei meu jaleco e comecei a dobrar a manga para que ele pudesse usar e ser o doutor de animais. Então ele me contou: "Mamãe, eu quero ser o Buzz Lightyear!" Pensei, pensei e pensei... Até que entendi: Kiyo poderá ser aquilo que ele quiser (como disse anteriormente), e hoje ele precisa apenas se preocupar em ser criança.
A sociedade em geral tenta moldar as pessoas desde muito cedo para seguirem esta ou aquela profissão no futuro. Conheço pessoas que estudaram por anos para serem doutores e engenheiros para satisfazer um sonho que na verdade nem deles era. E isso os transforma em profissionais ruins, deprimidos com suas "escolhas". No final das contas, a própria sociedade paga a conta por essa pressão desnecessária para que nossas crianças professem ainda tão cedo o que eles "querem" ser. E quando o que eles querem ser não confere com o que é "desejável", críticos franzem a testa e se acham no direito de opinar. De verdade, porque uma criança de 5 anos precisa dizer o que vai ser quando crescer?
Quando o Kiyo foi questionado sobre sua escolha de ser Spiderman, ele logo achou uma maneira de se enquadrar no que era apropriado para mim e disse que queria ser um doutor de animais. Hoje pela manhã, quando ele cismou em ser o Buzz, eu confesso que relutei um pouco. Tentei novamente explicar as profissões. Até que me flagrei do que eu estava fazendo e apenas concordei. Kiyo é criança. Deixe que ele seja criança! Entrando no carro, com a roupa do Buzz Lightyear dentro da sacola, eu olhei para meu pequeno Space Ranger - Super Herói e disse em seu ouvido: "Kiyo, você é o meu Super Herói favorito!".
Chegando na escola, vimos os coleguinhas vestidos de médicos, bombeiros, soldados, cantores e mergulhadores... Kiyo colocou sua roupa de Buzz e disse todo feliz: "I will be a Space Ranger!"


Hoje ele me ensinou mais uma lição: deixe a criança ser criança e equipe-a de forma com que ela possa realmente ser aquilo que quiser.





2 comentários:

Aline Cortes disse...

Dentre muitas questões delicadas na educação de um filho, "guiá-lo" para o caminho que ele escolher é uma das mais difíceis. Concordo com tudo que disse, acho que hj em dia, com esse lance todo da concorrência cada vez maior por uma vaga numa boa faculdade, a gente tem que tomar cuidado pra deixar os pequenos serem pequenos pelo tempo que for preciso.
Beijos
Aline
www.decaronanacegonha.blogspot.com

dehkioshima disse...

Acho mito desnecessaria essa cobrança que está sobre nós, onde caa vez mais cedo nos questiona o motivo de estarmos agindo como crianças e nos cobrando uma posição sobre questões tão difíceis como esta. As crianças devem brincar, claro que se desenvolvendo intelectualmente, mas não joguem sobe elas o peso de uma escolha tão difícil e tão importante. Acredito que, como sempre, você agiu da melhor forma possível Dani. Vocês são um exemplo de pais para mim, que espero poder ser para meus futuros filhos.
Beijos
DK