quarta-feira, 11 de julho de 2012

Olha o bicho papão...


"Se você não dormir (não ficar quieto, não comer tudo, não fizer o que eu estou mandando...), o bicho papão (homem do saco, bruxa, cuca, tchuca, lixeiro, bombeiro, carteiro, João Curutu...) vai te pegar." Quem ouviu algo remotamente parecido com isso na infância ergue a mão! *Mãos erguidas bem alto no ar* Qual é a graça em assustar crianças pequenas com esses personagens imaginários (ou nem tanto, afinal o carteiro, bombeiro e lixeiro fazem parte da realidade da gente)? 
Eu acho particularmente cruel usar essa tática para conseguir com que as crianças (filhos ou não) atendam aos pedidos feitos. Ainda assim pessoas e mais pessoas que deveriam ser esclarecidas lançam mão de terrorismo emocional para que os filhos comam, durmam, tomem banho ou simplesmente fiquem quietos. Daí quando os pequenos não conseguem fazer nada sozinhos, dormem mal e tem medo de tudo, essas mesmas pessoas passam a rotular as crianças de medrosas, frescas ou coisa pior ainda. Não entendem que esse mal foi causado por elas próprias.
Quando o Kiyo nasceu, eu passei a me atentar mais para as famosas canções de ninar, principalmente as que falavam de bicho papão em cima do telhado ou de boi da cara preta que ia pegar o menino com medo de careta. Ficava pensando na forma que aquelas palavras tomariam na cabecinha do meu pequeno. Procurei sempre cantar  coisas boas, falar palavras serenas que significassem o tamanho do meu amor por ele.
Agora que a imaginação do Kiyo está a mil, tudo é motivo para ele mirabolar seres de outros planetas ou fantasmas e monstros. Isso faz com que seus medos estejam mais aflorados. Então são inúmeras vezes que ele pede para que a gente o acompanhe até o banheiro, e requisita que eu fique com ele na cama mesmo depois que ele já tenha adormecido. Imagino como seria se além dos medos normais da idade, ele tivesse que lidar com o terror imposto por outras pessoas. Pior ainda se essa outra pessoa tivesse que representar segurança na vida dele.
Com o tempo, a medida que o Kiyo foi crescendo, a gente passou a explicar algumas coisas para que ele soubesse onde e o que realmente é perigoso. E explicamos que não é preciso ter medo (pois o medo paralisa), mas sim ter cuidado (cautela). Deixamos também que a imaginação dele floreça ainda mais, criando histórias incríveis de super-heróis, monstros, dinossauros, coelhinhos da Páscoa, papais-noéis e afins... Afinal, a vida é muito mais divertida quando podemos imaginá-la.


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