sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Permitindo-lhe crescer, um passo por vez e no tempo dele...

Kiyo sempre foi decidido. Desde que nasceu (ou talvez muito antes disso), se ele decidia fazer algo, ia ateh o fim. Foi assim com a amamentacao (que nos dois conseguimos juntos), foi assim com ir pra escola, andar de bike, nadar, mergulhar... Ele praticamente "decidia" que podia fazer algo, ia sem piscar e o resultado era sempre um papai e uma mamae totalmente atonitos e surpresos.
Nos tentamos estimular (da maneira que achamos melhor) essa vontade de fazer as coisas, de testar seus limites e de decidir por si proprio algumas coisas que dizem respeito a sua vida (logico que dentro das devidas proporcoes de seguranca e adequacao para a idade). A cada dia percebemos que ele tem esticado os limites de sua "autonomia". Por vezes, ele tem que lidar com a frustracao de nao conseguir completar o desafio. Isso tambem faz parte do seu crescimento emocional. Como mae-leoa, eu tenho que muitas vezes fazer um esforco alem das minhas forcas para permiti-lo aprender tambem com essas pequenas frustracoes.
Kiyo nao tinha completado 1 ano de vida quando se deparou com a grade da porta da frente da casa em que moravamos no Brasil. Como era "calor", o vidro estava aberto. Sem piscar, ele se agarrou na grade, erguendo-se do chao e comecou a subir. Escalou a grade toda ateh chegar lah no alto da porta. O papai, todo cuidadoso, estava logo atras, sem tirar do pequeno o extase que a adrenalina promoveu ao perceber que estava no alto.
Isso o permitiu continuar a escalar, a subir no alto e de lah observar o mundo que lhe cerca. A seguranca de que o papai estava ali, mas o permitiu explorar, fez com que o nosso pequeno e decidido menino nao tivesse medo de subir em arvores ou entao nos brinquedos desafiadores do parquinho.
 
Logo que nos mudamos para os EUA, Kiyo ganhou da voh Wilda uma mascara e tubo de snorkel. Ao mesmo tempo compramos para ele uma piscininha inflavel para que pudessmos aproveitar um pouco o calorzao da Florida. Toda vez que ele brincava na piscininha, mascara e tubo iam junto. Ele colocava toda aquela parafernalia e sentava na piscina, com agua na cintura... no entanto, ele tinha certeza absoluta que estava mergulhando. Tentamos fazer com que ele usasse a mascara algumas vezes na praia. Ele colocava a mascara e o tubo, e se divertia por horas sentado na areia molhada. Ateh que um dia ele decidiu experimentar. E desde entao, quando vamos a praia, Kiyo passa horas debaixo d'agua contando os peixinhos.
Morando na praia, eh muito importante que o pequeno saiba nadar. Pensando assim, matriculamos o Kiyo na natacao durante os meses de verao. No primeiro ano, ele foi bem. No segundo, ele simplesmente nao queria saber. Mais uma vez, lembramos de todo o resto... e vendo como ele lidou com tantas outras decisoes e escolhas, achamos que seria prudente dar ao Kiyo todo tempo necessario para que ele proprio se sentisse pronto para mais esse salto. E hoje ele pula, nada, vira cambalhotas debaixo d'agua feito um peixinho... sem medo e sem obrigacoes.
Sua ida para a escola tambem nao foi diferente. Decidimos que nao iriamos impor sobre ele o "quando ir pra escola". Deixariamos que ele proprio demonstrasse vontade de ir. E aos 3 anos e 5 meses, nosso menino decidiu por si mesmo que queria dar mais esse passo em seu desenvolvimento emocional/social. E lah foi ele todo feliz e sorridente no primeiro dia de aula, segurando a lancheira em uma mao e um sorriso inconfundivel de alegria e realizacao estampado no rosto. Eu confesso que fiquei apreensiva. Nunca havia deixado o Kiyo com gente estranha. Mas ele marchou sala a dentro com toda determinacao e seguranca que tentamos passar para ele desde que nasceu.
Esse ano ele ingressou no Kindergarten (ou o Pre no Brasil). Mudou de escola, e deixou tudo aquilo que lhe era familiar e transmitia seguranca. Abracamos com ele essa nova aventura, e como sempre, um passo de cada vez. Deixamos que ele ditasse o ritmo dessa nova aventura. No inicio, a empolgacao deu lugar a apreensao. Tudo novo, escola grande e novas regras a serem seguidas. Para nossa surpresa (e orgulho), Kiyo embarcou de cabeca nessa nova etapa em sua vida. A nova experiencia inclui o decidir por si soh o que vai comer na hora do almoco (lunch) que eh na escola. E, se ele quiser, pode tambem decidir o que vai comer no cafe-da-manha, caso queira te-lo tambem na escola.
Nos primeiros dias, Kiyo chegava de forma timida ateh a porta da escola. Buscava em nosso olhar a certeza de que tudo estaria bem. No entanto, ele entedeu bem as regras da escola. Papai e mamae nao poderiam leva-lo ateh a porta da sala de aula. Jamais em tom demoralizador ou usando palavras que o facam sentir inseguro, aguardamos com ele o momento de entrar. Uma vez em meio as outras criancas, ele entra porta a dentro. Olha para tras, para garantir que estamos ali. E sempre ficamos ateh que ele desapareca no final do corredor.
Deixamos que ele escolha tambem aquilo que quer comer dentro do que eh oferecido no lanche. Nesse instante, ele pode exercer sua "liberdade" de menino grande. Ficamos um tanto apreensivos no inicio, pensando se ele faria escolhas saudaveis. Nos primeiros dias, devido a empolgacao da novidade, ele comeu hot dogs e pizzas, tomou leite com chocolate. Sim, ele continua escolhendo algumas "porcarias". No entanto, ele tambem optou por saladas e frutas, cereais integrais ao inves dos acucarados. No final das contas, acho que o saldo eh positivo. Ele sente que o damos o credito por escolher sua propria comida (sem ter que levar de casa).
Desde o inicio das aulas, perguntamos sobre amiguinhos novos que ele fez na turma, com quem brincou no dia e tal. Normalmente a resposta eh bem reticente. Mas eu, como mae-leoa que sou, sempre cutuco, pergunto cem mil vezes a mesma coisa, e ele acaba se abrindo.
Ontem ao chegar na escola (ele disse que nao queria ir cedo para tomar o cafe da manha na escola), Kiyo encontrou um amiguinho da turma. Cumprimentaram-se na porta, Kiyo se despediu da gente rapidamente e foi matraqueando porta a dentro com o coleguinha. Em casa, numa de nossas conversas sobre o seu dia na escola, Kiyo me mostrou novamente que eh capaz de decidir por si soh.
Chegamos na escola pela manha com tempo suficiente para que ele pudesse andar da porta de entrada ateh sua sala (7:45, quando o sinal bate apenas as 8). Kiyo me disse que a professora falou que ele estava atrasado ao entrar na sala. Eu fiquei confusa. "Como assim atrasado? Voce chegou na escola antes do sinal bater." Depois de futucar um pouco, entendi.
Vejam bem: ele supostamente nao iria tomar o cafe da manha na escola, certo? Soh que quando ele encontrou seu amiguinho, os dois meninos decidiram que queriam tomar o cafe da manha. E lah foram os dois tranquilamente ateh a cafeteria (cantina) solicitar sua merenda. E assim, ambos se atrasaram para entrar na sala.
Quando ele me contou isso, eu primeiro falei que nao era para ele tomar o cafe da manha na escola. Daih, pensando melhor pude ver a maravilha da coisa. Ele se sente seguro o suficiente para decidir sozinho o que vai fazer. E assim, hoje fomos mais cedo para que o pequeno pudesse enfim desfrutar do cafe da manha em companhia do amiguinho.

Ver o Kiyo tomar suas decisoes, escolher o que quer e o que nao quer (e explicar porque tomou esse ou aquele caminho) eh muito gratificante. Percebemos muitas criancas (na mesma escola que o Kiyo vai) que simplesmente paralisam e nao sabem como agir sem a mao dos pais para conduzir seus passos. Percebemos tambem criancas tendo que conformar com os demais, mesmo que elas nao se sintam seguras ou confortaveis com isso. Vemos pais passando por cima dos sentimentos de inseguranca e medo dos filhos para nao "passar vergonha em publico". E assim criancas crescem sem saber o real potencial que podem atingir.
Nos nao fazemos tudo certo com o Kiyo. Jah disse aqui que estamos longe da perfeicao. No entanto, o Kiyo sabe que suas insegurancas serao reconhecidas por nos. E que seus medos serao respeitados. Ele sabe que ao olhar para tras, enquanto entra na escola grande e nova, ele vai nos encontrar ali do lado de fora. E quantas vezes forem preciso, iremos abraca-lo e beija-lo ateh que ele se sinta tranquilo suficiente para escolher como serah o seu dia.


Um comentário:

Karine Helmer disse...

Ai que lindo! É tão bom ver nossos filhos crescerem não é mesmo?