terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ter medo não é covardia

Eu já fui uma pessoa "medrosa", "cagona" e outros adjetivos menos apreciados. Eu já tive muito medo do escuro. Já tive tanto medo de aranha que chegava a congelar no lugar. Ficava apavorada (mesmo depois de "velha") só da possibilidade de ter que ficar sozinha em casa. Não gostava de filmes de terror, pois eu sabia que teria pesadelos. Morria de medo de cair de bicicleta, de pular na piscina ou de subir em lugares altos.
Quando eu era criança, eu aprendi que sentir medo era sinal de fraqueza. Chorar era coisa de gente boba, e eu não tinha motivos para ficar com medo de nada. 
Lembro das inúmeras vezes que chegava a fazer xixi na cama pois o medo de levantar e ir ao banheiro no meio da noite - no escuro - era paralizante. Lembro também das outras vezes em que ficava acordada na cama rezando para que o dia logo clareasse para que eu pudesse levantar, tão paralizada eu estava das sombras que se faziam na janela do quarto. Eu chorava de medo, mas escondia meu choro de vergonha de sentir medo... de vergonha de ser tão "covarde".
Talvez na tentativa de me ajudar a superar os medos, meus cuidadores tenham dito vez ou outra que meu medo era uma "besteira", coisa sem importância ou que não tinha nada para ter medo ali. Talvez eu tenha ouvido isso sendo dito a outras crianças e tenha incorporado isso pra mim. Certamente ouvi de colegas que eu era covarde por sentir medo de certas coisas. A verdade é que eu tinha certeza de que meus medos faziam de mim uma covarde e que - se covardia era algo ruim - então ter medo (ou afirmar tê-los) era algo ruim também. E assim sendo, eu escondia meus medos. Engolia seco e passava por situações que temia. 
Vejam bem, enfrentar medos é saudavel desde que essa seja uma escolha ativa de cada um, e isso deve ser feito com o apoio de pessoas de confiança. No entanto, quando somos forçados a "enfrentar nossos medos" sem que tenhamos apoio e sem reconhecer que esses medos são reais, o resultado pode ser desastroso.
Lembro bem de como me sentia quando meus medos eram diminuídos e minhas inseguranças eram tidas como besteiras ou motivos de deboche. Eu sentia que era covarde. Foi apenas depois de adulta que passei a assumir meus medos. Passei a tomar posse deles, e refutar qualquer tipo de chacota. E a sensação de LIBERTAÇÃO foi avassaladora. 
Então, quando o Kiyo nasceu, fiquei muito atenta para seus medos. Se ele demonstrasse insegurança em fazer algo, eu estava ali para dar-lhe segurança. Depois dos 3 anos, ele passou a sentir mais medos. Esses medos passaram a ser bem mais frequentes.
Desde então, conversamos bastante sobre esses medos. Pergunto a ele detalhes sobre seu medo. Explico a ele que estarei ali, e que não há problema algum em sentir medo - apenas precisamos encontrar meios para vencer o medo paralizante. 
Ultimamente seus medos têm aumentado significantemente. Praticamente todas as noites ele chora de medo. Fica apavorado com qualquer barulho do apartamento de cima. Não quer ir sozinho ao banheiro. Seus medos são variados: medo do escuro, medo de monstros, medo de ladrões, medo de barulhos estranhos, medo de perder mamãe e papai... medos que o fazem ficar apreensivo, medos que o fazem chorar de soluçar e agarrar minha mão com toda sua força de menino de 8 anos. 
E quando ele se acalma, depois que o choro passa, enquanto ainda estamos ali abraçados enfrentando juntos seu medo, eu conto para ele a minha historia. Explico para ele que sentir medo é normal. Conto de como eu me sentia quando tinha medo do escuro. Falo sobre não existir medo besta, sem motivo ou sem importância. Explico também que, apesar de ser normal sentir medo, não podemos deixar que os nossos medos nos paralisem. E que por isso ele tem a mamãe e o papai - para ajudá-lo a combater seus medos - a enfrentá-los de frente, com coragem e segurança de que ele pode vencê-los. 
Digo a ele que toda vez que ele sentir medo, ele pode contar comigo para segurar sua mão - indiferente da hora. Ele sabe disso. Ele não tem vergonha de sentir medo, pois ele não precisa enfrentar seus medos sozinho. Afinal: TODOS JUNTOS SOMOS FORTES!



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