quarta-feira, 6 de junho de 2018

Onze anos de Metamorfose!



Kiyo fez 11 anos. No entanto, já tem algum tempo em que apresenta uma maturidade além da idade. Aos 11 anos, acompanha bem conteúdos de 7ª e 8ª séries. Aos 11 anos, busca por conta desafios que eu mesma nunca imaginei buscar quando tinha a mesma idade. Aos 11 anos, reivindica com eloquência aquilo que acha ser direito seu. Aos 11 anos, questiona nossas escolhas e argumenta em favor das suas próprias.
Ele se encontra numa fase de transi
ção, onde ainda é menino, mas quer ser mais... busca liberdades que ainda não consegue suportar, e desafia às nossas recomendações como se quisesse conferir se sabíamos o que falamos. Suas escolhas são suas e nem sempre são as mais adequadas. Seus métodos são seus, e nem sempre são os que surtem bons resultados. No entanto, temos que respeitar e orientar. Temos que aceitar que tudo faz parte do aprendizado da vida.

Eu estou vivendo tudo isso de boca aberta, surpresa com sua determinação. E tudo isso, essa busca por autonomia total de sua vida, suas escolhas e seu caminho, me deixam confusa. Não sei até onde puxar, até onde segurar, até onde permitir ou até onde controlar suas escolhas. Escuto suas conversas com outras pessoas e percebo que nossos ensinamentos estão sendo incorporados. No entanto, percebo mais e mais que influências de colegas já fazem parte de suas decisões. Percebo que em muitos aspectos ele exibe características estranhas à nossa realidade familiar. E assim, temos vivido alguns momentos – não todos, obviamente – de conflito e preocupação.
Sei que isso tudo faz parte do desenvolvimento dele, inclusive as “mentirinhas” e os “segredos”. E por fazer parte do desenvolvimento, eu me sinto ainda mais preocupada com a forma em que essas mudanças podem afetá-lo no futuro. Talvez, e muito provavelmente, essa minha preocupação não tenha grandes repercuções. No entanto, é minha obrigação de mãe prepará-lo para ser o adulto que ele será no futuro. Tenho certeza de que ele será muito mais centrado do que eu fui, e que não terá os mesmos dilemas que eu tive. Percebo desde já que sua determinação beira a obstinação, e que isso pode ser seu trampolim para uma vida bem sucedida (tanto profissional quanto pessoalmente). No entanto, me preocupo – exatamente por isso – com a forma em que devo guiá-lo sem forçá-lo a nada que ele não queira. Como devo orientá-lo, apresentando opções saudáveis sem escolher por ele? Como devo ter confiança que ele irá seguir o caminho da justiça e do respeito sem temer que ele desvie a atenção por algo “brilhante”? Essas perguntas inundam meu pensamento. E cada vez que penso sobre esse assunto, lembro de algo que perguntei a minha própria mãe quando eu passava por essas “fases” da vida: “Você não confia em mim? Ou você não confia na criação que me deu?” Hoje eu entendo a resposta silenciosa de minha mãe: Não é falta de confiança: nem em você, meu filho, nem na sua criação. É incerteza, pois os caminhos ainda não foram traçados, e o futuro é repleto de incertezas. Então, temo sim. Temo pelo mundo em que vivemos. Temo pelas escolhas que fiz e como essas escolhas podem moldar a pessoa que você é e será. Temo em ser exigente demais, e tolher sua liberdade. Temo em ser permissiva demais, e não proteger sua integridade. Acho que no final das contas, a cada fase na vida de um filho, seus pais passam por metamorfoses completas: viram borboletas e voltam a ser lagartas inúmeras vezes, transformando junto com eles a vida dos filhos.
Hoje, estando Kiyo cada vez mais independente de nós – tanto nas escolhas quanto no dia-a-dia, sinto essa transformação e agradeço pela oportunidade de guiar sem forçar. Agradeço quando percebo que – apesar da metamorfose dolorida – nosso trabalho como pais do Kiyo está se cumprindo. E ele está se transformando numa pessoa muito melhor e muito maior do que eu poderia imaginar há 11 anos atrás.