terça-feira, 6 de novembro de 2012

Agenda livre para brincar...




Quando eu era crianca, minha maior obrigacao (tirando ir a escola por meio periodo) era de brincar, explorar a vida e curtir os dias junto da familia. Minha mae e meu pai tinham que trabalhar, mas nos tinhamos a sorte (ou melhor bencao) de ficar com a voh e vo. Nossas tardes eram rotineiras, sim. Nao viviamos numa anarquia simplesmente por nao ter o regimento escolar e as agendas lotadas de atividades extra-curriculares. Se iamos a escola no periodo da tarde, nossa manha iniciava com um gostoso cafe, sem muita pressa. Se as funcoes academicas eram pela manha, nossas tardes se resumiam em brincadeiras. Nas ferias? Podiamos escolher o que fazer. Lembro bem da minha vo inventando brincadeiras e atividades para nos 3 (ou 4) em dias de chuva, com direito a bolinho de chuva e tudo. Em todo esse tempo, poucas eram as atividades extra-curriculares regimentadas. Brincar era a palavra de ordem. Ser crianca era muito bom!

Quando o Kiyo comecou na escolinha, aos 3 anos e meio e por vontade propria, recebemos inumeros convites para que o matriculassemos em escolinhas de futebol, baseball, artes marciais, etc... A intencao eh ocupar as horinhas dele com o maximo de atividades possiveis. Mas para que isso? Quem foi que instituiu que criancas precisam de agendas cheias para terem rotina?

Kiyo acorda as 6:30 da manha. Toma cafe e nos arrumamos para irmos a escola. Todos nos vamos (de bike) pra escola (ele pra dele, e nos para a nossa). As 2 da tarde, pegamos o Kiyo na escola e (em nossas bikes) voltamos pra casa. As vezes, apenas um de nos vai busca-lo na escola. Porem, a norma eh que temos as tardes LIVRES para brincar com o Kiyo. A gente corre em volta do condominio, anda de bike, vai a praia ou a piscina, joga bola... a gente tambem pinta, brinca de massinha, assiste filme... pausa pra um lanchinho devidamente preparado por nos mesmos... tem vezes que vamos a biblioteca, ao parque ou ao shopping... e quando dah, se sobra um tempinho, Kiyo vai junto as nossas idas a campo, como assistente ofical da equipe.

Para algumas pessoas, crianca com a agenda lotada nao tem tempo pra "pensar besteira". Nos achamos que crianca com a agenda lotada nao sabe o que fazer quando tem tempo livre, nunca exercitou a criatividade, nao consegue curtir um filme sossegada com as pernas pra cima... essas criancas aprendem desde muito cedo a viver na roda viva, na correria do dia-a-dia. Quando perceberem, jah nao serao mais criancas, e nao terao vivido o melhor tempo da vidinha delas. Criancas de agenda lotada tambem sao indicativos de pais com agendas lotadas.

 Nao entro no merito de pais que tenham que trabalhar fora. Nos tambem trabalhamos (estudamos) fora, no entanto o tempo que temos com o Kiyo eh um tempo bem vivido. Podemos dizer que curtimos cada momento da melhor forma que pudemos. Ok, nao quer dizer que ele nunca brinca sozinho ou que sempre estamos monitorando todas as atividades dele. Ha momentos em que apenas observamos, ouvimos suas conversas imaginarias. Sua vida nao se resume a uma lista de atividades pre-agendadas, cronometradas ou supervisionadas. Ele eh livre para brincar do que quiser (dentro dos limites de seguranca, eh obvio). Deixamos que a criatividade dele corra solta.

Quem sabe, daqui ha alguns anos (se ele quiser), o Kiyo entre em algum esporte ou atividade extra-curricular. Por enquanto preferimos que ele tenha a agenda livre para ser crianca em tempo integral.



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cesarea revisited... analisar eh preciso!


Acho que toda mulher que passou por uma cesarea desnecessaria, seja por falta de informacao, falta de apoio ou falta de respeito dos todos poderosos doutores, acaba em algum momento de sua vida fazendo uma avaliacao mais aprofundada do processo todo. Essa nao eh a primeira vez que eu faco isso. E tenho certeza que nao serah a ultima vez tambem. Na verdade, cada vez que eu escuto/leio algum relato de parto ou sobre as condicoes que levaram alguem a se submeter a cesarea ou ainda tragedias que foram resultado de uma cirurgia desnecessaria (como esse aqui ou ainda aqui), eh inevitavel a minha re-avaliacao sobre meu proprio relato. Nao necessariamente do relato do nascimento do meu filho, mas do que antecedeu e culminou na retirada cirurgica antecipada do Kiyo.
Antes que alguem se sinta ofendida porque escolheu a cesarea como forma de receber o seu bebe,  quero deixar bem claro que este eh o MEU sentimento sobre algo que aconteceu COMIGO. E o que aconteceu comigo foi uma verdadeira ludibriacao da real situacao para garantir a conveniencia de outros.
Quando me disseram que eu teria que passar por uma cesarea, apesar de ter resultados normais nos exames realizados, eu me senti pequena e desamparada. Nao me isento da culpa por nao ter me informado devidamente. Essa talvez seja a maior culpa que eu jah senti na vida.
Minha gestacao foi tranquila. Ateh a semana 32, eu estava tranquilamente preparando o enxoval do meu bebe. Estava ainda em meio a um turbilhao de atividades na faculdade, mas nao era nada que me deixasse exausta. Quando foi a consulta da 32 semana, eis que me deparao com o fantasma da suposta pressao alta que veio me aterrorizar durante as proximas semanas de gestacao. Nessa consulta, a minha obstetra disse que minha pressao estava alta (140X110) e que era preciso me colocar em um comprimido para baixar a pressao. Eu nao entendi muito bem, afinal sempre ouvia que eh normal a pressao subir um pouco (principalmente) no final da gravidez. Eu estava um pouco inchada, mas isso tambem me parecia dentro da normalidade. Nao questionei as razoes da medica, pois "quem sou eu para debater com ela que estudou pra isso". Nas semanas que se sucederam, fiquei alguns dias de repouso por conta da tal pressao. No entanto, eu me sentia super disposta, e aquela precaucao toda nao fazia muito sentido. Em todas as consultas, mediam minha pressao e esta oscilava entre 130X90 e 140X110. Mas a cada consulta, a pressao era medida apenas 1 vez. Como ter certeza que essa medida era realmente a certa? Estudos cientificos indicam medir PELO MENOS 3 vezes EM CADA BRACO para se ter uma medida mais correta. Mas novamente, "quem sou eu pra questionar".
No dia 16 de maio de 2007, tive um dia normal com reunioes do estagio (jah que ainda nao tinha entrado em licenca) e uma visita a maternidade logo apos o almoco. Depois dessa visita, fui caminhando ateh o consultorio da obstetra para mais uma consulta. Ela mediu minha pressao assim que cheguei e disse que (logico - eu tinha andado apenas umas 15 quadras em ritimo acelerado) estava alta (140X110). Solicitou que eu fizesse uma ecografia com contraste para ver como estava o fluxo de sangue para o bebe. Fiz e o medico da ultra disse que estava tudo normal. Ao voltar na medica, ela disse: "estah tudo normal por enquanto, mas vamos precisar tirar o bebe hoje". Eu olhei pra ela e disse: "Hein? Mas nao estah tudo normal?" (primeira vez que eu questionei a medica). E ela respondeu: "Sim. Estah tudo normal com o bebe agora, mas eu prefiro nao arriscar."
Quando alguem fala para uma gestante que "x" pode ser arriscado, ou que "y" nao eh arriscado, ou que o que quer que seja pode significar um risco, a gestante em questao vai fazer exatamente o que lhe foi dito (se nao estiver munida de informacao, logico) para evitar esse tao temido "risco". Mesmo que esse risco nao seja necessariamente ao bebe ou a mae, e sim um risco de estragar os planos da medica/equipe. Entao, quando eu ouvi que ela nao queria arriscar, eu nao questinei mais nada. Apenas pedi que (se possivel) adiassemos a cirurgia para o dia seguinte, pois eu gostaria que o meu marido estevesse comigo quando terminasse. Ela acatou a ideia sem pestanejar. Na hora eu nao pensei muito sobre isso, mas depois das minhas inumeras avaliacoes sobre o evento, fiquei com mais essa pulga atras da orelha: "ok, se pode ter algum risco (imaginando que seja risco ao bebe, nesse caso - pois essa era a ideia que queriam passar pra mim), nao deveria a doutora ter me advertido sobre esperar mais um dia?" Enfim...
Enquanto eu estava na mesa de cirurgia, minha pressao arterial era 120X80 segundo o monitor do hospital. Levantei essa questao a doutora, que deu uma risadinha e disse: "ah sim, isso sempre acontece." - Peraih, o que sempre acontece?
Depois da cirurgia, tive depressao pos-parto e uma grande dificuldade para amamentar. Eu fiquei com a pulga atras da orelha sobre a pressao estar normal na hora do procedimento, mas nao questionei nada ateh que me vi obrigada a encarar de frente a questao da real necessidade da cirurgia no meu caso. Foi entao que eu descobri (ou melhor, confirmei) que pressao alta por si soh nao eh indicativa para cesarea e que muitos dos casos sao realmente desnecessarias. Combati aquelas alegacoes, pois isso colocava em duvida tudo aquilo que eu tinha acreditado ateh entao.
Soh que eu mesma nao tinha tanta certeza assim da real necessidade da cesarea. Foi quando eu iniciei meu processo (ainda em andamento) de "healing" em relacao a cesarea. Passei por todas as etapas que a Nanda do Mamiferas citou em seu post. Hoje, a cada vez que eu me deparo com esses questionamentos sobre a cesarea, aumenta em mim a certeza de que realmente ela foi desnecessaria.
Por mais que eu reveja, compare, analize... nao consigo encontrar uma justificativa plausivel para o que me aconteceu.
Primeiro: minha pressao nunca foi medida mais que uma vez por consulta. Era uma medicao e o diagnostico.
Segundo: esse diagnostico soh veio quando eu jah estava entrando no oitavo mes. Antes disse tudo estava normal.
Terceiro: em momento algum durante a gravidez, eu usei o tal monitor de pressao arterial. Imagino que se a coisa fosse tao horrivel e arriscada assim, nao seria a primeira coisa a ser feita? Antes mesmo de mandar tomar remedio pra pressao?
Quarto: Como a minha pressao estava normal na hora da cirurgia?
Quinto: Kiyo tinha a DDP para 05-07 de junho (se eu chegasse a 40 semanas exatas). Inicio de junho tem o feriadao de Corpus Christi no Brasil... Olha soh que pratico: marca a cesarea para nao arriscar... Agora entendi oque nao queriam arriscar: nao queriam arriscar estragar os planos de feriado...
Ok... Eu nao tenho certeza absoluta, registrada em cartorio com assinatura reconhecida. Mas, eh no minimo estranho, nao eh?
Enfim... agora que sei de mais isso, mais uma etapa do meu "healing process" se completa!
E antes que alguem venha com a conversa: "seu filho nasceu bem e saudavel, voce deveria agradecer por isso!" Sim, eu agradeco todos os dias. Agradeco pelo Kiyo nao ter sofrido nada extremamente serio com o adiantamento do seu nascimento. Ele nasceu com 37 semanas, ou seja nem estava na hora dele. Agradeco imensamente que, apesar de TUDO (negligencia medica e falta de informacao minha), ele nasceu e pode ficar comigo no quarto (mesmo que tenha demorado 4 horas para te-lo em meus bracos). Agradeco pois foi soh por Deus mesmo... pois a historia poderia ter sido bem outra. No entanto, nao ha o que me faca esquecer o olhar de susto do Kiyo, depois que ele veio pro quarto... um olhar profundo, que ficou me observando noite a dentro... como que dissesse: "Mamae, eu ainda nao estava pronto pra sair!" Nao nego que a bencao maior foi te-lo em meus bracos. Mas preferia nao ter que pagar o preco que paguei para isso: o preco de ter meu bebe dopado pela anestesia peridural, o preco de nao ter sido a protagonista do momento mais importante na minha vida...



sábado, 13 de outubro de 2012

WE ARE CRAZY, BUT WE ARE FAMILY!!!


Ha um ditado que diz: "familia a gente nao escolhe". E isso eh bem verdade. Quem escolhe a familia para nos eh Deus. Tenho certeza que mesmo aquelas pessoas que entram em nossa familia de forma agregada (atraves de casamentos, juntamentos e outros mentos...) sao devidamente escolhidas por Deus para esse legado tao importante. 
Nao ha um dia em que eu nao lembre com carinho e imensa saudade dos tempos em que eu brincava no quintal da casa da voh Vera e do vo Juvenal, correndo atras dos meus irmaos e primas. Ou entao quando iamos passar as ferias lah na casa do vo Joaquim e da voh Aurora e eramos disputados para dormir na casa dos primos, da bisa e dos primos do pai. Essas lembrancas, eu posso garantir, sao para a vida toda e moldam como a gente vai ser. 
Morando aqui nos EUA, fico bastante preocupada que o Kiyo possa perder esse contato tao bom e sadio com os primos e parentes no Brasil. Nao deixamos de manter o contato atraves de ligacoes e video-conferencias pelo skype. No entanto o contato fisico, as brincadeiras de final de semana e ateh mesmo as brigas, que fazem parte de qualquer familia saudavel e normal, fazem falta.
Nessa semana que passou tivemos o prazer de receber aqui em nosso lar um pouquinho dessa familia que me transformou em quem eu sou hoje. Meu irmao querido Thiago, sua esposa Michele, seus filhos Thiaguinho e Duda, minha mae e meu pai (de surpresa) vieram para passar comigo meu aniversario. Se para mim foi o melhor presente do mundo, imaginem para o Kiyo... 
Kiyo nao se cabia de tanta alegria em poder pular na piscina com os primos, apostar corrida de bike com o Thiaguinho, leva-los aos parques que mais gosta, desfrutar de uma semana de muita adrenalina (pouco sono) e todo amor do mundo. 


Nessa semana pude sentar e observar a forma em que o Kiyo se relaciona com a familia. E isso me levou de volta ao tempo em que eu corria com as minha primas ao redor da casa da voh, no tempo em que eu aprendia a andar de bike na rua sem asfalto na frente da casa da minha bisa em Maringa. 
Foi muito gostoso poder ver o Kiyo compartilhando o seu espaco com os primos do Brasil. Foi muito bom ve-los brincando no "espaco dele" e foi melhor ainda ver como essa alegria por estar em familia passa de geracao a geracao. 

Ver o meu pequeno vivendo um pouquinho da alegria de viver em familia nao tem preco! Ve-lo aproveitar ao maximo todo tempo (curto) com os tios, os primos e os avos vale muito a pena mesmo! 
Eh logico que passar o tempo tao "grudado" assim pode gerar alguns atritos. E ateh isso, por incrivel que pareca, foi muito legal. Nossa familia eh meio maluca (ok, bem maluca). Mas nao existe nada melhor nesse mundo que poder rir e se abracar com aquelas pessoas que Deus escolheu para fazer parte de nossas vidas.
O resto realmente... nao tem a menor graca!


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"Nao atingiu os padroes de leitura" e outras pressoes do sistema escolar

Apesar de ser filha de bibliotecaria (ok, minha mae eh formada em biblioteconomia) e de ter tido acesso a varios classicos da literatura infantil, enquanto crianca eu via a leitura como algo laborioso ou um "mal necessario". Nao que eu nao lesse. Quando o livro me interessava de verdade, eu lia de cabo a rabo em pouco tempo e relia varias vezes. O que realmente me fez perder o gosto pela leitura foi a "maldita leitura obrigatoria na escola".
Quem nao lembra de ter uma lista de livros para ler e depois ter uma prova para "provar que voce realmente leu a porcaria do livro"? Aquilo para mim era o oh! Eu odiava nao o LER, mas o TER QUE ler. 
Quando eu me interessava pelo livro, tipo Polyanna, a Ilha Perdida e o Cachorrinho Samba (colecao quase inteira), eu devorava as paginas. Quando eu era obrigada a ler, ficava enrolando e nao saia do primeiro capitulo. Assim foi ateh depois do vestibular. Os 10 livros obrigatorios para o meu primeiro vestibular nao foram nem tocados, embora tivessem sido devidamente providenciados. Apenas depois que eu casei foi que passei a "pegar gosto pela leitura".
Agora com o Kiyo, temos uma pequena biblioteca para ele. E cada vez que posso, compro mais um livrinho. Vamos a biblioteca, e escolhemos juntos os livros que serao lidos antes da hora de dormir.
E entao nosso mundo "tao legal", onde ele eh estimulado e nao forcado, entra em choque com um sistema educacional ingessado e (diga-se de passagem) bem contra-produtivo.
Nao me entendam mal, a escola eh bem equipada, com uma infra-estrutura bem boa. As turmas sao pequenas, as salas coloridas, as mesas e cadeiras de acordo com o tamanho da criancada. A professora eh bem querida, carinhosas e dedicada. Entao voces devem pensar: mas tah reclamando de que?
Eu critico (nao reclamo apenas) o sistema. Esse sistema que resolve padronizar todos os alunos baseados em resultados de testes estaduais ou nacionais. O sistema que faz com que professores se tornem escravas de funcoes irrelevantes que nao acrescentam nada ao ensino. Ao inves dos professores usarem o tempo deles em sala de aula para ensinar, estao perdendo tempo preenchendo formularios do tamanho de listas telefonicas com avaliacoes que no final das contas nao diz nada.
Na nossa primeira reuniao com a professora do Kiyo, fomos apresentados a tamanha burrocracia que reina no sistema educacional. A professora, muito bem intencionada e dedicada, nos mostrou que o Kiyo (que tem 5 anos recem completos) deverah estar lendo no nivel E ao termino do ano letivo. Nivel oque? Como se definem niveis de leitura no jardim de infancia? E quando recebemos o primeiro "progress report" do Kiyo, estava indicado que ele nao atingiu os padroes de leitura. Hein?
Bem, como jah foi decidido aqui em casa, nosso "metodo" eh o estimulo. Ele serah estimulado ler, assim como ele eh estimulado a escrever, desenhar, pintar, correr, andar de bike, nadar, cantar, dancar e tudo mais. Nao usamos a forca.
Mas que esse sistema quadrado me revolta, ah se revolta!
Ainda nao podemos iniciar o Homeschooling, mas iremos assim que for possivel!
Kiyo o contador de historias (vejam esse video)



domingo, 23 de setembro de 2012

Para o Kiyo: conselhos que soh uma mae pode dar...


Pouco antes do Kiyo fazer 5 anos, eu escrevi esse texto (em ingles) para ele. Hoje senti a necessidade de traduzi-lo e coloca-lo aqui. Como pais, a gente sempre deseja o melhor para nossos filhos. Eu acho importante que os ensinemos valores que vao carregar para a vida toda. E que nunca esquecam que, por maiores que sejam, e por mais independente que tenham se desenvolvido, ainda serao sempre nossos bebes. Eis os meus conselhos para o Kiyo...

Oi meu amor,
Voce estah com quase 5 anos. Jah vai para a escola e jah consegue escrever seu proprio nome. Viu soh como as coisas acontecem rapido? Algumas vezes nao consigo acreditar quao grande voce estah. Toda noite, quando olho para voce, ainda vejo o bebe que insistia em me olhar (mesmo no escuro) no hospital, na noite em que voce nasceu. Ainda consigo reconhecer em seus olhos o mesmo brilho que me olhava curiosamente, como se tentasse me reconhecer.
Agora que voce jah eh um menino grande, gostaria de compartilhar contigo algumas coisas que eu acho que voce deveria saber para a sua vida inteira. Agora pode ser que voce nao compreenda inteiramente o que eu falo, mas um dia certamente entendera.
1. BRINQUE! Brinque o maximo que puder e enquanto tiver energia para brincar.  Nunca, nem por um minuto, pense que voce eh muito velho para brincar. Veja seu papai. Ele sempre serah um bom exemplo de como a brincadeira eh saudavel e faz bem pra voce.
2. Nunca tenha medo de tentar coisas novas. Eu sei que o "desconhecido" pode ser assustador. Mas se voce nao experimentar, nunca saberah como eh realmente.
3. Lembre-se que, nao importa a distancia que estivermos fisicamente, eu sempre estarei com voce em seu coracao.
4. O medo paraliza. Entao, nao deixe que o medo paralize sua vida. Se voce estiver com medo de alguma coisa ou alguma situacao, tente encontrar meios para que isso nao seja tao assustador. Se isso significar chamar o PAPAI ou a MAMAE, tudo bem. Voce pode sempre contar conosco. E nao eh vergonha alguma admitir que tem medo de algo.
5. Quando estiver com alguma duvida, pergunte! Nunca tente adivinhar!
6. Se voce achar que nao pode perguntar, pergunte assim mesmo. Nao existem perguntas bobas! Ha, no entanto, pessoas cuja resposta faca parecer boba. E nesse caso, nao eh sua culpa por perguntar, mas da pessoa por nao saber responder.
7. Saiba uma lingua diferente (ou varias). Voce jah sabe duas. Mas nao esqueca dessa lingua. Eh muito importante poder falar com as pessoas em suas linguas nativas. Isso demonstra respeito.
8. Sorria! Seu sorriso eh o mais bonito do mundo! Sempre use-o para seu beneficio!!!
9. Respeite as pessoas apesar de suas diferencas. A pior coisa do mundo eh maltratar ou desrespeitar alguem apenas porque ele (ou ela) nao se encaixa no padrao. Sempre lembre-se que voce pode ser o diferente em algum ponto de sua vida.
10. Respeito o meio ambiente!!! Voce precisarah viver nesse mundo, entao faca dele um lugar agradavel para se viver. E nao desanime porque os outros nao fazem como voce. Algumas pessoas nao conseguem entender essa importancia.
11. A sua vovoh Ana sempre diz que as pessoas soh podem dar aquilo que elas mesmas tem dentro delas. Entao, tenha certeza de que voce terah coisas boas para dar aos outros, mesmo que eles nao retribuam. E nunca esqueca que nos demos a voce tudo aquilo que tinhamos de melhor.
12. Estude! Aprenda! E Questione! Ninguem sabe tudo, mas isso nao eh desculpa para nao procurar saber mais. O seu conhecimento eh talvez umas das unicas coisas que ninguem pode roubar. Use-o para fazer o bem.
13. Ame a Deus. Tenha certeza de que Ele cuida da gente. Busque a sua propria relacao com Ele, pois nao podemos viver a feh dos outros. O relacionamento com Deus eh pessoal e unico. Eu nao posso dizer para voce como deve ser, apenas posso contar como eh comigo.




quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Kiyo "Stinky" Romais

Ha alguns dias atras, Kiyo e eu estavamos nos preparando para ir ateh a piscina. Ele, com sua bike, esperava do lado de fora do portao. Eu, com as maos cheias, tentava fechar a porta sem deixar a toalha, os brinquedos e a chave da piscina cairem no chao.
Quando olho para o Kiyo, percebo que o chao (embaixo dele) estah molhado. Ele, mais que depressa, me disse: "Mamae, eu nao fiz xixi." E eu perguntei: "O que aconteceu entao Kiyo?" E ele, com cara de gatinho que foi pego com o passarinho na boca, respondeu: "Eh mamae, eu fiz xixi." Daih eu falei: "Mas Kiyo, porque voce nao pediu pra ir ao banheiro?" E ele: "Nao tem problema mamae, vai secar!" Daih eu tentei racionalizar: "Seca, mas vai ficar fedido." E ele: "Nao tem problema, mamae. 'Fedido' eh meu nome do meio." (Stinky is my middle name!).
Como argumentar com isso????


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Permitindo-lhe crescer, um passo por vez e no tempo dele...

Kiyo sempre foi decidido. Desde que nasceu (ou talvez muito antes disso), se ele decidia fazer algo, ia ateh o fim. Foi assim com a amamentacao (que nos dois conseguimos juntos), foi assim com ir pra escola, andar de bike, nadar, mergulhar... Ele praticamente "decidia" que podia fazer algo, ia sem piscar e o resultado era sempre um papai e uma mamae totalmente atonitos e surpresos.
Nos tentamos estimular (da maneira que achamos melhor) essa vontade de fazer as coisas, de testar seus limites e de decidir por si proprio algumas coisas que dizem respeito a sua vida (logico que dentro das devidas proporcoes de seguranca e adequacao para a idade). A cada dia percebemos que ele tem esticado os limites de sua "autonomia". Por vezes, ele tem que lidar com a frustracao de nao conseguir completar o desafio. Isso tambem faz parte do seu crescimento emocional. Como mae-leoa, eu tenho que muitas vezes fazer um esforco alem das minhas forcas para permiti-lo aprender tambem com essas pequenas frustracoes.
Kiyo nao tinha completado 1 ano de vida quando se deparou com a grade da porta da frente da casa em que moravamos no Brasil. Como era "calor", o vidro estava aberto. Sem piscar, ele se agarrou na grade, erguendo-se do chao e comecou a subir. Escalou a grade toda ateh chegar lah no alto da porta. O papai, todo cuidadoso, estava logo atras, sem tirar do pequeno o extase que a adrenalina promoveu ao perceber que estava no alto.
Isso o permitiu continuar a escalar, a subir no alto e de lah observar o mundo que lhe cerca. A seguranca de que o papai estava ali, mas o permitiu explorar, fez com que o nosso pequeno e decidido menino nao tivesse medo de subir em arvores ou entao nos brinquedos desafiadores do parquinho.
 
Logo que nos mudamos para os EUA, Kiyo ganhou da voh Wilda uma mascara e tubo de snorkel. Ao mesmo tempo compramos para ele uma piscininha inflavel para que pudessmos aproveitar um pouco o calorzao da Florida. Toda vez que ele brincava na piscininha, mascara e tubo iam junto. Ele colocava toda aquela parafernalia e sentava na piscina, com agua na cintura... no entanto, ele tinha certeza absoluta que estava mergulhando. Tentamos fazer com que ele usasse a mascara algumas vezes na praia. Ele colocava a mascara e o tubo, e se divertia por horas sentado na areia molhada. Ateh que um dia ele decidiu experimentar. E desde entao, quando vamos a praia, Kiyo passa horas debaixo d'agua contando os peixinhos.
Morando na praia, eh muito importante que o pequeno saiba nadar. Pensando assim, matriculamos o Kiyo na natacao durante os meses de verao. No primeiro ano, ele foi bem. No segundo, ele simplesmente nao queria saber. Mais uma vez, lembramos de todo o resto... e vendo como ele lidou com tantas outras decisoes e escolhas, achamos que seria prudente dar ao Kiyo todo tempo necessario para que ele proprio se sentisse pronto para mais esse salto. E hoje ele pula, nada, vira cambalhotas debaixo d'agua feito um peixinho... sem medo e sem obrigacoes.
Sua ida para a escola tambem nao foi diferente. Decidimos que nao iriamos impor sobre ele o "quando ir pra escola". Deixariamos que ele proprio demonstrasse vontade de ir. E aos 3 anos e 5 meses, nosso menino decidiu por si mesmo que queria dar mais esse passo em seu desenvolvimento emocional/social. E lah foi ele todo feliz e sorridente no primeiro dia de aula, segurando a lancheira em uma mao e um sorriso inconfundivel de alegria e realizacao estampado no rosto. Eu confesso que fiquei apreensiva. Nunca havia deixado o Kiyo com gente estranha. Mas ele marchou sala a dentro com toda determinacao e seguranca que tentamos passar para ele desde que nasceu.
Esse ano ele ingressou no Kindergarten (ou o Pre no Brasil). Mudou de escola, e deixou tudo aquilo que lhe era familiar e transmitia seguranca. Abracamos com ele essa nova aventura, e como sempre, um passo de cada vez. Deixamos que ele ditasse o ritmo dessa nova aventura. No inicio, a empolgacao deu lugar a apreensao. Tudo novo, escola grande e novas regras a serem seguidas. Para nossa surpresa (e orgulho), Kiyo embarcou de cabeca nessa nova etapa em sua vida. A nova experiencia inclui o decidir por si soh o que vai comer na hora do almoco (lunch) que eh na escola. E, se ele quiser, pode tambem decidir o que vai comer no cafe-da-manha, caso queira te-lo tambem na escola.
Nos primeiros dias, Kiyo chegava de forma timida ateh a porta da escola. Buscava em nosso olhar a certeza de que tudo estaria bem. No entanto, ele entedeu bem as regras da escola. Papai e mamae nao poderiam leva-lo ateh a porta da sala de aula. Jamais em tom demoralizador ou usando palavras que o facam sentir inseguro, aguardamos com ele o momento de entrar. Uma vez em meio as outras criancas, ele entra porta a dentro. Olha para tras, para garantir que estamos ali. E sempre ficamos ateh que ele desapareca no final do corredor.
Deixamos que ele escolha tambem aquilo que quer comer dentro do que eh oferecido no lanche. Nesse instante, ele pode exercer sua "liberdade" de menino grande. Ficamos um tanto apreensivos no inicio, pensando se ele faria escolhas saudaveis. Nos primeiros dias, devido a empolgacao da novidade, ele comeu hot dogs e pizzas, tomou leite com chocolate. Sim, ele continua escolhendo algumas "porcarias". No entanto, ele tambem optou por saladas e frutas, cereais integrais ao inves dos acucarados. No final das contas, acho que o saldo eh positivo. Ele sente que o damos o credito por escolher sua propria comida (sem ter que levar de casa).
Desde o inicio das aulas, perguntamos sobre amiguinhos novos que ele fez na turma, com quem brincou no dia e tal. Normalmente a resposta eh bem reticente. Mas eu, como mae-leoa que sou, sempre cutuco, pergunto cem mil vezes a mesma coisa, e ele acaba se abrindo.
Ontem ao chegar na escola (ele disse que nao queria ir cedo para tomar o cafe da manha na escola), Kiyo encontrou um amiguinho da turma. Cumprimentaram-se na porta, Kiyo se despediu da gente rapidamente e foi matraqueando porta a dentro com o coleguinha. Em casa, numa de nossas conversas sobre o seu dia na escola, Kiyo me mostrou novamente que eh capaz de decidir por si soh.
Chegamos na escola pela manha com tempo suficiente para que ele pudesse andar da porta de entrada ateh sua sala (7:45, quando o sinal bate apenas as 8). Kiyo me disse que a professora falou que ele estava atrasado ao entrar na sala. Eu fiquei confusa. "Como assim atrasado? Voce chegou na escola antes do sinal bater." Depois de futucar um pouco, entendi.
Vejam bem: ele supostamente nao iria tomar o cafe da manha na escola, certo? Soh que quando ele encontrou seu amiguinho, os dois meninos decidiram que queriam tomar o cafe da manha. E lah foram os dois tranquilamente ateh a cafeteria (cantina) solicitar sua merenda. E assim, ambos se atrasaram para entrar na sala.
Quando ele me contou isso, eu primeiro falei que nao era para ele tomar o cafe da manha na escola. Daih, pensando melhor pude ver a maravilha da coisa. Ele se sente seguro o suficiente para decidir sozinho o que vai fazer. E assim, hoje fomos mais cedo para que o pequeno pudesse enfim desfrutar do cafe da manha em companhia do amiguinho.

Ver o Kiyo tomar suas decisoes, escolher o que quer e o que nao quer (e explicar porque tomou esse ou aquele caminho) eh muito gratificante. Percebemos muitas criancas (na mesma escola que o Kiyo vai) que simplesmente paralisam e nao sabem como agir sem a mao dos pais para conduzir seus passos. Percebemos tambem criancas tendo que conformar com os demais, mesmo que elas nao se sintam seguras ou confortaveis com isso. Vemos pais passando por cima dos sentimentos de inseguranca e medo dos filhos para nao "passar vergonha em publico". E assim criancas crescem sem saber o real potencial que podem atingir.
Nos nao fazemos tudo certo com o Kiyo. Jah disse aqui que estamos longe da perfeicao. No entanto, o Kiyo sabe que suas insegurancas serao reconhecidas por nos. E que seus medos serao respeitados. Ele sabe que ao olhar para tras, enquanto entra na escola grande e nova, ele vai nos encontrar ali do lado de fora. E quantas vezes forem preciso, iremos abraca-lo e beija-lo ateh que ele se sinta tranquilo suficiente para escolher como serah o seu dia.