terça-feira, 4 de setembro de 2012

Enquanto isso, na escola dominical...


Depois que tivemos serios conflitos na instituicao religiosa da qual participavamos no Brasil, tanto eu quanto o Jeff resolvemos nos afastar. Isso em momento algum abalou a nossa feh, pois nossa feh eh em Deus e nao nas pessoas que frequentam essa ou aquela denominacao religiosa.
Kiyo nasceu, e apesar de nao irmos a nenhuma denominacao, buscamos sempre ensina-lo sobre feh, Deus e tudo que acreditamos. Explicamos da melhor forma que sabemos quando ele indaga sobre a criacao do mundo e onde estamos inseridos nisso tudo. Conversamos sobre questoes de feh simples e pura, e deixamos claro que nao somos os portadores de "toda sabedoria" e nao temos todas as respostas. No que diz respeito aos porques: "porque acreditamos", "porque agimos dessa e nao daquela forma"... apresentamos a ele nossa experiencia propria de vida com Deus (ou seja, como nos pessoalmente e como familia nos relacionamos com Deus).

No entanto, sentiamos que havia uma necessidade de apresentarmos o fator "comunidade" nessa experiencia. Conhecer outras pessoas que compartilham da nossa feh, e conviver com elas de forma mais pessoal (nao ficar pulando de galho em galho). Entao passamos a buscar um grupo do qual participar, uma comunidade de convivio... Nao acreditamos que Kiyo estivesse mais (ou menos) seguro se inserido em um desses grupos, mas achamos que seria saudavel de um modo geral.
Ele proprio passou a pedir para participar e ir a igreja aos domingos. Entao, mais motivo para que procurassemos um lugar. E fomos em 1, 2, 3, 4,... N igrejas. Fomos acolhidos em algumas, nem tanto em outras. Estavamos nos sentindo verdadeiros peixes fora d'agua em praticamente todas. Mas seguimos buscando e orando.

Eis que nos mudamos de casa (e de cidade). E nessa mudanca, encontramos um grupo que nos pareceu a primeira instancia bem acolhedor. Ha um grupo de brasileiros nessa comunidade, entao nos encaixamos rapidinho. Kiyo gostou das atividades para as criancas e voltava para casa contando a historinha que ouviu e a atividade que fizeram. A coordenadora do programa infantil entrou em contato conosco para saber nossa opiniao. Parecia tudo muito agradavel e de um modo geral tranquilo. A mensagem no culto normalmente era ok. Nao era excepcional, mas nao era totalmente absurda. Cabia dentro do contexto da comunidade. Estavamos esperando que os grupos pequenos comecassem para termos uma melhor ideia sobre isso.
Domingo passado (09/02) fui com o Kiyo ao culto. Ele ficou na escola dominical e eu fui assistir ao culto. A mensagem desta vez foi boa. Tocou em varios pontos importantes, falando sobre injustica e como devemos lutar contra a injustica. Pela primeira vez senti-me compelida a preencher os formularios de visitante e passar a nossa informacao adiante. Tudo ia muito bem... ateh que...

Ao pegar o Kiyo na saida do culto, percebi que ele estava meio cabisbaixo. Atribui isso a canseira das atividade e ao calor. Chegando em casa, Kiyo soltou um comentario que nos deixou deveras tristes. Ao perguntarmos (pela enesima vez) o que ele aprendeu na escola dominical, ele respondeu: "Only kids who have Bibles get candy!" Nossa reacao foi conjunta: "O que????" Eu perguntei quem havia dito aquilo e ele disse que foi a professora. E assim um misto de revolta e culpa tomou conta de mim. Revolta porque fizeram isso com o Kiyo (ele nao tinha a Biblia e consequentemente nao ganhou o doce). Culpa porque eu permiti que fizessem isso, mesmo que involuntariamente.

Afinal, o que estao ensinando as escolas dominicais de hoje? Com que direito pessoas que se dizem "seguidoras de Cristo" falam algo que essencialmente exclui uma crianca de apenas 5 anos? E se a intencao foi outra, como pessoas que deveriam ser exemplo, nao pensam nas consequencias de suas palavras? Pensando sobre isso, eu e meu esposo escrevemos uma carta a lideranca dessa igreja fazendo esses questionamentos. Alem disso, recompensar qualquer coisa que seja com porcarias???? O bom senso mandou dizer que estah na esquina e nao vai voltar tao cedo, hein?

Nossa preocupacao nao se deu porque o Kiyo nao ganhou o doce. O problema nao foi o doce. O problema foi a frase usada. A frase exclui. E como para um bom entendedor meia palavra basta, e o Kiyo nao eh tolinho, foi o suficiente para que ele percebesse: "OOPS, eu nao trouxe a Biblia. Entao eu nao vou ganhar a recompensa."

Kiyo nao levou a Biblia a igreja, pois nao ha necessidade pratica para ele carregar uma Biblia embaixo do braco. Ele nao le ainda. No entanto, ele compreendeu bem o que lhe foi dito, e nao somente as palavras que foram ditas abertamente, mas a mensagem subliminar: a igreja exclui pessoas que nao se vestem de acordo para parecerem (externamente) como seguidores de Cristo. E pior, se voce nao sabe ler, nao serah recompensado.

Nos nao levamos a Biblia para a igreja, pois nao ha necessidade tambem. Nao nos vestimos "de acordo com a moda Gospel" para que os outros saibam que somos Cristaos. Alias, de onde vem essa ideia que eh preciso um marcador exterior (uma forma de vestir, falar ou comer) para indicar a feh de alguem? Escolhemos nao nos excluir. Escolhemos nao nos diferenciar a nao ser pelas nossas proprias acoes. Preferimos que as pessoas conhecam o Cristo que habita em nossos coracoes atraves do nosso carater, atraves do nosso testemunho de vida, e nao porque andamos carregando uma Biblia aos domingos.

Infelizmente (ou felizlmente) fomos mais uma vez confrontados com o farisaismo inerentes das instituicoes religiosas, mascarados de acoes bem-intencionadas. Assim, continuaremos a ser Igreja de Cristo a nossa moda. E o Kiyo, gracas a Deus, vai saber que nao eh preciso falar diferente ou se vestir diferente para ser reconhecido por Deus.

P.S: Em tempo, recebi hoje uma ligacao da coordenadora do programa explicando como eles conduzem as atividades das criancas e o porque eles iniciaram o programa de "recompensas". Ela disse que eh uma forma de fazer com que as criancas criem o habito de abrir e ler a Biblia. Ela explicou que nunca foi a intencao deles (ou da igreja) de fazer com que nos sentissemos excluidos. Convidou-nos para que participassemos do grupo das criancas, voluntariando, para que tivessemos confianca e certeza sobre como tudo eh conduzido. Vou dizer que fiquei um tanto aliviada pela tentativa da coordenadora de arrumar essa experiencia. Ao conversar com o Kiyo hoje, depois da aula, se ele gostava da igreja e se gostaria de voltar lah. Ele disse que sim sem pensar duas vezes.
Eh possivel que a gente tivesse lido demais nas entrelinhas. Eh possivel que tivessemos exagerado na dose da resposta que enviamos atraves de um email para a lideranca da igreja. No entanto, no que diz respeito ao Kiyo, eu nao vou medir palavras e nem ao menos esforco para descobrir exatamente o que aconteceu e porque aconteceu. Acho que esse zelo eh o que chamam de AMOR DE MAE (E DE PAI).


domingo, 2 de setembro de 2012

Meu pequeno eco"friend"....

Que o Kiyo gosta de bichinhos, todo mundo sabe. Que ele tem o seu lado "ecologo-cientista", tambem nao eh novidade. Hoje pudemos confirmar mais uma vez esse lado totalmente "verde" e "ecologico" do Kiyo.
Estavamos na piscina hoje a tarde e, como sempre, ele pulava na agua, nadava e dava cambalhotas em meio a muita risada. Sempre que estamos na piscina, invariavelmente algum besourinho resolve tentar a sorte e acaba caindo naquela agua azul. Kiyo corre (ou melhor nada) para o resgate, tira o inseto da agua, coloca-o na beirada e fica observando para ver se o besourinho vai sobreviver a experiencia.
Hoje, enquanto a gente brincava na piscina, uma familia com 3 criancas (2 menores que o Kiyo e 1 maior) chegaram na piscina. Tudo ia bem, e o Kiyo fazia todas as suas macaquices para chamar a atencao do menino maior, quando de repente a menininha comeca a gritar e a apontar para a beira da piscina (justamente onde o besouro resgatado se encontrava). Os outros irmaos e os pais correm para ver o que eh.   E a menina fala toda esbaforida: "eh um besouro! Vamos mata-lo!" A menina correu pra perto da mae, pegou um copo, encheu de agua e correu para jogar no besouro.
Quando o Kiyo ouviu aquilo, ele correu (nadou) para fora da piscina e se colocou entre a menina e o besouro. Quando a menina chegou perto dele com o copo de agua, ele virou e "rugiu" para ela. Quando perguntamos porque ele fez aquilo, ele se defendeu: "eles iam matar o besouro!"


sábado, 25 de agosto de 2012

Coracao de Estudante...

 Quando mudamos para os EUA, Kiyo tinha apenas 2 anos e meio. Muita gente pensou que iriamos coloca-lo imediatamente na escolinha para dar conta de trabalhar. Ao contrario, mantivemos nossa conviccao que o melhor para o Kiyo era ficar com o papai e a mamae a maior parte do tempo. Continuamos nossos malabarismos e garantimos que ele brincasse no parquinho ou na praia todos os dias. Ateh que um dia...
Aos 3 anos e meio, depois que voltamos de uma viagem de pesquisa, Kiyo demonstrou um interesse bem grande de ir para a escola. Procuramos uma escola perto de casa, que fosse de acordo com as nossas condicoes e que fosse flexivel, aberta e com turmas pequenas. Aos 3 anos e meio, nosso pequeno entrou pela primeira vez num novo mundo. Ele ficou nessa pre-escola por 2 anos. 
Este ano letivo ele comecou uma nova etapa na sua vida escolar. Aos 5 anos, Kiyo eh aluno em uma escola elementar (Jardim ao Quinto ano). Mudamos para uma nova cidade (Boca Raton) onde as escolas sao consideradas muito boas. Todos que ouviam o nome da escola que Kiyo atenderia nesse ano diziam que eh uma excelente escola, e que a administracao e os professores sao muito bons e atenciosos. Fizemos a matricula. Fomos conhecer a professora e compramos o "uniforme". Todos foram muito atenciosos.
Primeiro dia de aula: Kiyo acordou logo cedo anunciando que iria tomar o cafe da manha na escola (eles oferecem cafe da manha gratuito para todos os alunos que quiserem). Fomos os tres de bike para a escola, ele de uniforme novo e uma empolgacao tremenda. Acompanhamos o pequeno no primeiro dia ateh a cafeteria. Ele pegou cereal, leite e alguma outra coisa. Ficou todo feliz por estar na "escola de menino grande". Almocou na escola e voltou todo faceiro dizendo que gostou.
No segundo dia de aula, solicitaram que os pais entregassem os filhos na porta e que os pequenos fossem por si (ou acompanhados de outros alunos monitores) ateh a cafeteria. Kiyo ficou ressabiado no inicio. Eu conversei com ele e disse que ele iria com o colega monitor. Ele olhou o menino grande e foi andando de mochila nas costas e sem olhar para tras. 
Uma semana jah se passou desde o inicio das aulas do Kiyo. Seu desenvolvimento eh obvio. Ele estah comecando a aprender a juntar os sons das letras para ler as palavrinhas nos livrinhos. Mas o que mais me surpreende eh sua seguranca. Desde a primeira vez que ele foi a escola, ele entrou pisando firme e decidido. Ele aparenta ser timido, mas jah demonstra seu lado "palhacinho" que faz os coleguinhas rirem. Ele espera que a professora indique o eh para ser feito antes de fazer, e aparentemente estah gostando.
O balanco da semana tem sim os pros e contras. Nem tudo eh de acordo como a gente gostaria, mas no final das contas acho que a escola eh boa sim. Existem algumas arestas a serem ajustadas, mas isso se resolve com amor e dedicacao da nossa parte (e da deles tambem). De qualquer maneira, a gente nao deixa o dia passar sem saber exatamente o que aconteceu na escola... sem saber a versao dele das coisas. Eu gostei da infra-estrutura que a escola oferece (mesmo sendo publica). Essa foi a primeira semana. Veremos como serah o restante do ano letivo.
Ao contrario do que nos indicavam as criticas, Kiyo eh uma crianca bem sociavel, cordial e respeitosa. Ele sabe o seu lugar no mundo. No entanto, antes de mais nada, ele sabe (e a gente tenta sempre deixar isso o mais claro possivel para ele todos os dias) que ele sempre pode contar com o papai e a mamae quando algo for assustador. Ele sabe que estamos do seu lado e assim ele pode pisar firme e decidido. Esta seguranca que ele tem nao tem preco. E isso soh pode ser adquirido com muito colo, amor e presenca.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O que você quer ser quando crescer? Que tal ser criança primeiro?


Lembro bem quando esta pergunta foi dirigida a mim, que na época tinha 6-7 anos. E lembro melhor ainda da minha resposta. Olhei bem nos olhos do meu interlocutor e respondi com orgulho: "Eu vou ser professora!". Quando a pessoa tentou me corrigir dizendo que professor não ganhava bem, eu respondi sem pestanejar: "Eu não quero ser professora por causa do dinheiro. Eu quero ser professora porque eu gosto." Com o tempo, minhas escolhas mudaram. Quis ser escritora, jornalista, publicitária, psicóloga, médica... Tornei-me bióloga, pesquisadora, educadora ambiental e (quem diria - ainda bem que a vida dá voltas) professora. Não, a realidade de um professor aqui nos EUA não é diferente da realidade de um professor no Brasil (considerando os devidos padrões, é claro). Aqui, um professor ainda ganha pouco e trabalha muito. É um profissional pouco reconhecido e muito exigido. É preciso mesmo ter o dom de ensinar para ser professor, pois é muito fácil esquecer o compromisso real e fazer foco apenas na parte ruim. Hoje eu quero SER PROFESSORA. 
Quando olhei no calendário de atividades programadas pela colônia de férias do Kiyo, vi que hoje (sexta-feira, 13 de julho) seria o dia dedicado à carreira futura / profissão. E a tal pergunta voltou a fazer parte dos meus pensamentos: "O que meu filho quer ser quando crescer?" Perguntei a ele, que prontamente me respondeu: "I want to be Spiderman" (eu quero ser o Homem Aranha). Expliquei a ele que uma profissão é diferente de ser "super herói". Que o próprio Peter Parker tinha uma profissão. Ele é sim o Homem Aranha, mas esse é o seu super poder. E que ele trabalha em um jornal como fotógrafo e repórter. Daí contei para ele o que cada uma das pessoas que ele conhece fazem como profissão. Expliquei, do meu jeito, que eu sou mãe (meu super poder), mas que minha profissão é pesquisadora-professora. 
Então ele teve uma idéia: "Mamãe, eu vou ser um doutor de animais." E eu perguntei: "você quer ser um doutor que estuda animais (como o Dr. Wetterer - meu orientador que ele conhece bem) ou você quer ser um doutor que cuida de animais?" E ele: "um doutor que cuida de animais." E eu: "Ah, você quer ser um vet." E ele: "Sim, eu quero ser um VET!". E assim dormimos a noite. Hoje pela manhã, peguei meu jaleco e comecei a dobrar a manga para que ele pudesse usar e ser o doutor de animais. Então ele me contou: "Mamãe, eu quero ser o Buzz Lightyear!" Pensei, pensei e pensei... Até que entendi: Kiyo poderá ser aquilo que ele quiser (como disse anteriormente), e hoje ele precisa apenas se preocupar em ser criança.
A sociedade em geral tenta moldar as pessoas desde muito cedo para seguirem esta ou aquela profissão no futuro. Conheço pessoas que estudaram por anos para serem doutores e engenheiros para satisfazer um sonho que na verdade nem deles era. E isso os transforma em profissionais ruins, deprimidos com suas "escolhas". No final das contas, a própria sociedade paga a conta por essa pressão desnecessária para que nossas crianças professem ainda tão cedo o que eles "querem" ser. E quando o que eles querem ser não confere com o que é "desejável", críticos franzem a testa e se acham no direito de opinar. De verdade, porque uma criança de 5 anos precisa dizer o que vai ser quando crescer?
Quando o Kiyo foi questionado sobre sua escolha de ser Spiderman, ele logo achou uma maneira de se enquadrar no que era apropriado para mim e disse que queria ser um doutor de animais. Hoje pela manhã, quando ele cismou em ser o Buzz, eu confesso que relutei um pouco. Tentei novamente explicar as profissões. Até que me flagrei do que eu estava fazendo e apenas concordei. Kiyo é criança. Deixe que ele seja criança! Entrando no carro, com a roupa do Buzz Lightyear dentro da sacola, eu olhei para meu pequeno Space Ranger - Super Herói e disse em seu ouvido: "Kiyo, você é o meu Super Herói favorito!".
Chegando na escola, vimos os coleguinhas vestidos de médicos, bombeiros, soldados, cantores e mergulhadores... Kiyo colocou sua roupa de Buzz e disse todo feliz: "I will be a Space Ranger!"


Hoje ele me ensinou mais uma lição: deixe a criança ser criança e equipe-a de forma com que ela possa realmente ser aquilo que quiser.





quarta-feira, 11 de julho de 2012

Olha o bicho papão...


"Se você não dormir (não ficar quieto, não comer tudo, não fizer o que eu estou mandando...), o bicho papão (homem do saco, bruxa, cuca, tchuca, lixeiro, bombeiro, carteiro, João Curutu...) vai te pegar." Quem ouviu algo remotamente parecido com isso na infância ergue a mão! *Mãos erguidas bem alto no ar* Qual é a graça em assustar crianças pequenas com esses personagens imaginários (ou nem tanto, afinal o carteiro, bombeiro e lixeiro fazem parte da realidade da gente)? 
Eu acho particularmente cruel usar essa tática para conseguir com que as crianças (filhos ou não) atendam aos pedidos feitos. Ainda assim pessoas e mais pessoas que deveriam ser esclarecidas lançam mão de terrorismo emocional para que os filhos comam, durmam, tomem banho ou simplesmente fiquem quietos. Daí quando os pequenos não conseguem fazer nada sozinhos, dormem mal e tem medo de tudo, essas mesmas pessoas passam a rotular as crianças de medrosas, frescas ou coisa pior ainda. Não entendem que esse mal foi causado por elas próprias.
Quando o Kiyo nasceu, eu passei a me atentar mais para as famosas canções de ninar, principalmente as que falavam de bicho papão em cima do telhado ou de boi da cara preta que ia pegar o menino com medo de careta. Ficava pensando na forma que aquelas palavras tomariam na cabecinha do meu pequeno. Procurei sempre cantar  coisas boas, falar palavras serenas que significassem o tamanho do meu amor por ele.
Agora que a imaginação do Kiyo está a mil, tudo é motivo para ele mirabolar seres de outros planetas ou fantasmas e monstros. Isso faz com que seus medos estejam mais aflorados. Então são inúmeras vezes que ele pede para que a gente o acompanhe até o banheiro, e requisita que eu fique com ele na cama mesmo depois que ele já tenha adormecido. Imagino como seria se além dos medos normais da idade, ele tivesse que lidar com o terror imposto por outras pessoas. Pior ainda se essa outra pessoa tivesse que representar segurança na vida dele.
Com o tempo, a medida que o Kiyo foi crescendo, a gente passou a explicar algumas coisas para que ele soubesse onde e o que realmente é perigoso. E explicamos que não é preciso ter medo (pois o medo paralisa), mas sim ter cuidado (cautela). Deixamos também que a imaginação dele floreça ainda mais, criando histórias incríveis de super-heróis, monstros, dinossauros, coelhinhos da Páscoa, papais-noéis e afins... Afinal, a vida é muito mais divertida quando podemos imaginá-la.


domingo, 8 de julho de 2012

Independência adquirida sem atropelar etapas




Quando o Kiyo nasceu, eu ouvi inúmeras vezes que era preciso deixá-lo dormir sozinho e que não era bom ficar pegando no colo a cada vez que ele resmungasse. "Ele precisa aprender a ser independente", diziam algumas pessoas. "Ele vai ficar manhoso e você vai sofrer depois", outras palpitavam. No início, esses "conselhos" oferecidos sem cerimônia me deixavam confusa. Eu, mãe de primeira viagem, tinha uma série de pré-conceitos próprios sobre a maternidade e o que era apropriado fazer ou não com o bebê. "Deus me livre ficar refém de um pequeno ditador", ouvia várias vezes ecoando no meu sub-consciente.
Com o tempo, aprendi a ouvir meus instintos e principalmente a respeitar a relação que estava criando com o Kiyo. Aprendi a ouvir suas necessidades e entender que elas não eram artimanhas que ele mirabolava para "conseguir o que queria". Elas eram reais e legítimas. Aprendi o valor de uma "cara de paisagem" quando pela enésima vez me via obrigada a explicar minhas razões e decisões. Aprendi a ser incisiva nas minhas decisões em como agir com o Kiyo.
E assim, nesses cinco anos de vida, o Kiyo teve muito colo, muito carinho, muito mamá no peito, muita cama compartilhada, muito respeito. Ele também teve suas frustrações respeitadas e suas indagações respondidas (na medida do meu possível). Ele pôde ficar em casa com o papai e mamãe, sem pressa de iniciar sua vida "escolar". Ele pode usar fraldas até que ele estivesse pronto para o desfralde. O desmame foi natural e no tempo dele. E a hora de dormir ainda é compartilhada.
Há os que cismem em dizer que ele é muito grudado na gente (principalmente comigo). Há os que olhem nossa dinâmica e achem o Kiyo "dependente demais". Olhando o Kiyo hoje, empolgadíssimo em me ajudar a lavar a louça e fazer uma forma de Brownies, não consigo concordar com esses comentários.

Eu não consigo entender que pressa é essa em ter os filhos independentes, atropelando etapas tão importantes na vida deles. E afinal, o que é ser independente? É não precisar dos pais NUNCA e PRA NADA? Então qual é a função dos pais nesse caso?
Não posso falar da vida de ninguém, nem tampouco da forma como cada um decide criar os filhos que Deus lhes deu. Só posso falar por mim, e não troco a relação que eu e o Kiyo temos por noite de sono alguma. Ele tem apenas 5 anos, e sua independência (ou dependência) condiz com a sua idade. Ele pode desbravar o seu mundo (real ou imaginário) e voltar correndo para se aninhar no meu colo à noite antes de dormir. Todas as vezes que isso acontecer, estarei aqui com o colo pronto para recebê-lo.


QUE NOJO!

"Kiyo, seu umbigo vai estourar para fora", foi o que eu lhe disse depois de constatar que o menino havia comido duas pratadas de arroz, feijão, salada de cenoura com tomate e cebola e dois pedaços de frango. Ele olhou para a própria barriga estufada e riu uma risada gostosa, todo orgulhoso do feito. "Eu comi tudo, mamãe", falou batendo na barriga.
Na hora de dormir, ele lembrou do episódio da barriga e do umbigo estourando pra fora. Então eu contei que quando ele "morava na minha barriga" a minha barriga ficou tão grande que meu umbigo saiu pra fora. E ele sentou na cama (no quarto escuro), colocou o dedo na minha barriga e disse: "Que nojo, mamãe!".
E eu fiquei pensando, para alguém que acha a maior graça soltar puns e arrotar, é interessante de ver a diferença entre nojento e divertido.