Quando nos
tornamos pais, a sociedade quase que imediatamente exige que transformemos
nossos bebês em seres independentes. De livros a
programas de TV, blogs, médicos e parentes, somos bombardeados
com “dicas infalíveis” para “treinar” bebês as mais variadas funções. Os pitacos vêm disfarçados de preocupação com o futuro do bebê, dos pais e – se duvidar – até do mundo.
Se o bebê recém-nascido chora de madrugada, precisa ser “treinado” para dormir
sozinho. Se o bebê dorme mamando, precisa ser “treinado” com a chupeta para que
não fique “chupeitando”. Se o bebê chora ao ser deixado no berço, precisa
aprender a ficar sozinho. A criança tem que dormir sozinha no seu próprio
quarto sem que os pais precisem ficar junto, pois precisa aprender a ser independente.
Se os pais saem, a criança precisa aprender a ficar com outras pessoas – sejam elas
familiares ou nem tanto. Dormir junto na cama dos pais ou até mesmo no quarto
do casal é sinal certeiro de que a criança vai ter problemas no futuro para se
desligar dos pais. Tem que ir pra escola logo nos primeiros meses para
acostumar fora de casa. E se chorar, precisa ficar mesmo que os pais possam
mantê-la em casa por mais tempo. Quando o bebê reclama que “quer colo”, somos
encorajados a negá-lo para que ele logo aprenda que precisa se acalmar sozinho.
E nós, pais novos cheios de dúvidas sobre como agir corretamente, temos que
aprender a ser “firmes” para que nossos filhos não cresçam mimados ou pior:
dependentes.
Não é à toa que mais e
mais pessoas são diagnosticadas com algum tipo de ansiedade ou disturbio
emocional. Sentem-se incapazes de confiar em outras pessoas. Acabam precisando
tomar remédio para regular o nível absurdo de inseguranças que vêm carregando
por uma vida inteira. Não é à toa que crianças novinhas ainda apresentam
dificuldades emocionais. Não é à toa porque geração após geração temos criado
esses problemas. Geração após geração insistimos que para criar seres
independentes temos que privá-los de qualquer semblante de dependência.
Insistimos que para preparar nossos pequenos para o mundo, precisamos transformá-los
em pessoas amargas, mesquinhas e desconfiadas – ok, talvez esse não seja nosso
objetivo consciente, mas toda essa busca por independência logo no início da vida
acaba resultando nisso: pessoas egoístas porque tiveram suas necessidades
ignoradas; pessoas desconfiadas, pois nunca puderam confiar em alguém que as
ouvisse de verdade; pessoas dependentes emocionalmente pois jamais aprenderam o
que é ter certeza que se pode contar com alguém sempre.
Tudo que um bebezinho
novo, uma criança em desenvolvimento, um jovem adolescente e até nós adultos “barbados”
precisamos é a segurança de que temos apoio quando precisamos e que nossos
medos e incertezas são respeitados. E precisamos ensinar aos nossos filhos que
tudo bem ser dependente, pois isso faz parte do nosso desenvolvimento enquanto
seres humanos. Tudo bem chorar porque teve um pesadelo de madrugada, sabendo
que terá apoio para vencer o medo que fica depois. Tudo bem dizer que tem medo
de tomar vacina, pois sabe que seu medo não será ridicularizado – mas receberá
apoio para ultrapassar essa barreira. Precisamos aprender que “amor não estraga”,
mas faz brotar e crescer forte.
Quando Kiyo era
bebezinho, eu ouvi todos os tipos de conselhos acerca desse assunto. Ouvi inúmeras
críticas sobre a amamentação prolongada, a cama compartilhada, o quarto
compartilhado, o ingresso tardio na escola e assim por diante. Ouvi que ele
certamente seria uma pessoa dependente tanto de mim quanto do Jeff, pois dormia
com a gente e mamava. Ouvi tudo isso e continuei no meu caminho. Esse ano Kiyo
foi pela primeira vez dormir na casa de um colega e passou a semana num
acampamento de verão. Quem o conhece nos conta sobre como ele é maduro e
confiante. Ele é seguro de si e sabe que pode contar conosco para o que
precisar... SEMPRE.
Permitimos que ele
fosse dependente para que ele descobrisse sua própria independência.
E hoje quem se preocupa é ele. Deixei-o na casa do amigo e voltei pra casa de bike. Ele ficou me passando um monte de recomendações para voltar em segurança.


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