sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Permita que seu filho seja dependente...




Quando nos tornamos pais, a sociedade quase que imediatamente exige que transformemos nossos bebês em seres independentes. De livros a programas de TV, blogs, médicos e parentes, somos bombardeados com “dicas infalíveis” para “treinar” bebês as mais variadas funções. Os pitacos vêm disfarçados de preocupação com o futuro do bebê, dos pais e – se duvidar – até do mundo.
Se o bebê recém-nascido chora de madrugada, precisa ser “treinado” para dormir sozinho. Se o bebê dorme mamando, precisa ser “treinado” com a chupeta para que não fique “chupeitando”. Se o bebê chora ao ser deixado no berço, precisa aprender a ficar sozinho. A criança tem que dormir sozinha no seu próprio quarto sem que os pais precisem ficar junto, pois precisa aprender a ser independente. Se os pais saem, a criança precisa aprender a ficar com outras pessoas – sejam elas familiares ou nem tanto. Dormir junto na cama dos pais ou até mesmo no quarto do casal é sinal certeiro de que a criança vai ter problemas no futuro para se desligar dos pais. Tem que ir pra escola logo nos primeiros meses para acostumar fora de casa. E se chorar, precisa ficar mesmo que os pais possam mantê-la em casa por mais tempo. Quando o bebê reclama que “quer colo”, somos encorajados a negá-lo para que ele logo aprenda que precisa se acalmar sozinho. E nós, pais novos cheios de dúvidas sobre como agir corretamente, temos que aprender a ser “firmes” para que nossos filhos não cresçam mimados ou pior: dependentes.
Não é à toa que mais e mais pessoas são diagnosticadas com algum tipo de ansiedade ou disturbio emocional. Sentem-se incapazes de confiar em outras pessoas. Acabam precisando tomar remédio para regular o nível absurdo de inseguranças que vêm carregando por uma vida inteira. Não é à toa que crianças novinhas ainda apresentam dificuldades emocionais. Não é à toa porque geração após geração temos criado esses problemas. Geração após geração insistimos que para criar seres independentes temos que privá-los de qualquer semblante de dependência. Insistimos que para preparar nossos pequenos para o mundo, precisamos transformá-los em pessoas amargas, mesquinhas e desconfiadas – ok, talvez esse não seja nosso objetivo consciente, mas toda essa busca por independência logo no início da vida acaba resultando nisso: pessoas egoístas porque tiveram suas necessidades ignoradas; pessoas desconfiadas, pois nunca puderam confiar em alguém que as ouvisse de verdade; pessoas dependentes emocionalmente pois jamais aprenderam o que é ter certeza que se pode contar com alguém sempre.
Tudo que um bebezinho novo, uma criança em desenvolvimento, um jovem adolescente e até nós adultos “barbados” precisamos é a segurança de que temos apoio quando precisamos e que nossos medos e incertezas são respeitados. E precisamos ensinar aos nossos filhos que tudo bem ser dependente, pois isso faz parte do nosso desenvolvimento enquanto seres humanos. Tudo bem chorar porque teve um pesadelo de madrugada, sabendo que terá apoio para vencer o medo que fica depois. Tudo bem dizer que tem medo de tomar vacina, pois sabe que seu medo não será ridicularizado – mas receberá apoio para ultrapassar essa barreira. Precisamos aprender que “amor não estraga”, mas faz brotar e crescer forte.
Quando Kiyo era bebezinho, eu ouvi todos os tipos de conselhos acerca desse assunto. Ouvi inúmeras críticas sobre a amamentação prolongada, a cama compartilhada, o quarto compartilhado, o ingresso tardio na escola e assim por diante. Ouvi que ele certamente seria uma pessoa dependente tanto de mim quanto do Jeff, pois dormia com a gente e mamava. Ouvi tudo isso e continuei no meu caminho. Esse ano Kiyo foi pela primeira vez dormir na casa de um colega e passou a semana num acampamento de verão. Quem o conhece nos conta sobre como ele é maduro e confiante. Ele é seguro de si e sabe que pode contar conosco para o que precisar... SEMPRE.
Permitimos que ele fosse dependente para que ele descobrisse sua própria independência.

E hoje quem se preocupa é ele. Deixei-o na casa do amigo e voltei pra casa de bike. Ele ficou me passando um monte de recomendações para voltar em segurança.

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