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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Educar eh uma arte...


Antes de engravidar, eu tinha uma ideia fixa sobre a educacao de filhos. Nunca gostei de apanhar, e nunca achei que as poucas vezes que apanhei na vida foram realmente "merecidas". Ainda assim eu acreditava na velha historia falaciosa de que "algumas criancas precisam apanhar e ateh pedem para isso" e que "uma palmada bem dada pode ajudar a moldar o carater da crianca, ensinando-lhe o certo do errado". Assim, quando eu via uma crianca se comportando mal na rua, achava o cumulo que os pais nao fizessem nada "mais fisico" para conter o tal "pestinha".
Ainda penso que a culpa por filhos indisciplinados e sem limites eh dos pais. As criancas vao refletir na rua aquilo que vivem em casa. E se em casa a indisciplina e a falta de limites correm soltas; se em casa elas podem tudo porque os pais "nao tem tempo" para dar-lhes a atencao que precisam ou se em casa quem cuida delas nao tem a autoridade de disciplinar e moldar um comportamento inadequado, fora dela a coisa nao vai ser diferente. No entanto agora como mae e educadora nao consigo imaginar que o uso de forca fisica seja justificado em momento algum, com crianca alguma.
Quando o Kiyo nasceu, tanto eu quanto o Jeff assumimos 100% a educacao dele. Por 3 anos e alguns meses, nao terceirizamos nada que fosse relacionado ao Kiyo. Tinhamos sim apoio, mas ninguem alem de nos dois tomava as decisoes. E se alguem tentasse passar por cima do que tinhamos estipulado, podia preparar bem os ouvidos... Ainda nao terceirizamos a educacao dele. Ele agora vai pra escola e tem outras pessoas dando exemplos para ele. No entanto, tenho certeza de que nosso exemplo segue firme e forte.
Em relacao a disciplina, Jeff e eu tivemos nossas diferencas na forma de agir e ateh que ponto uma atitude era ou nao adequada. No entanto, conseguimos depois de muito dialogo chegar num denominador comum. Nos decidimos que bater nao eh a saida, e muito menos eh uma opcao consciente. Bater nao eh (no nosso ver) disciplinar. Bater eh um ato de violencia, resultado de uma tentativa frustrada de tomar as redeas de uma situacao que jah degringolou faz tempo. Explico (ao menos) o meu ponto de vista:
Quando penso em uma situacao onde o pai ou mae recorre a tal "palmada" para corrigir o filho, nao consigo imaginar (nem lembrar) esse pai (adulto) calmamente falando pro filho: "bom, voce fez isso de errado. Agora voce vai apanhar para aprender que nao eh assim que se deve agir." Normalmente a acao de bater vem regada de emocoes nada salutares: ira, raiva, frustracao. Essas sensacoes sao bastante naturais. Somos seres-humanos, e eh natural que sintamos essas coisas. No entanto, como seres racionais, nos conseguimos controlar essa emocao negativa e canaliza-la para obter um resultado positivo. Isso leva tempo, determinacao e muita paciencia. Mas e quem falou que ser mae ou pai eh facil???
"Ah, mas voce vai criar uma crianca sem limites! A culpa vai ser sua por nao ter disciplinado seu filho!". Concordo com a segunda parte da acusacao, mas nao acredito que a surra, palmada ou qualquer tipo de violencia fisica seja o meio para que meu (ou o seu) filho aprendam limites. A culpa da indisciplina dos filhos eh dos pais sim. No entanto, bater neles nao garante filhos disciplinados. Usar a forca fisica pode ensina-los a temer os pais a ponto de nao sentir-se confortavel para compartilhar suas duvidas, frustracoes, alegrias e vitorias. Pode tambem ensinar que a violencia eh a moeda de troca sempre. E que bater em alguem mais fraco eh OK se esse alguem lhe frustrar ou enfrentar sua "autoridade". Pode causar feridas tao profundas que nem mesmo eles (os filhos) vao entende-las ou reconhece-las. Eles podem, como na maioria das vezes acontece, superar tudo e crescer sem "grandes traumas", podem ateh sobreviver a experiencia, e podem inclusive acreditar que realmente mereceram todas as vezes que apanharam. No entanto, qual eh a nossa funcao como pais? Nao eh a de dar o melhor exemplo que pudermos? Nao eh a de guiar nossos filhos para que possam ser no futuro homens e mulheres de bem? Como eh que isso funciona se a usarmos a violencia toda vez que o nosso filho nos desobedecer?
A alternativa a palmada como uma das formas de educar uma crianca eh a presenca constante, consistencia, o respeito e muita paciencia. Eh colocar os limites atraves de exemplos praticos na nossa propria vida. Eu aprendi muito mais com meu pai e minha mae atraves dos exemplos que eles me deram. Exemplos de como devemos tratar os outros. O que eh certo e errado. O que eh etico e o que nao pode ser aceitado (nem quando ninguem estah olhando).
Kiyo, hoje com 4 anos e 8 meses, tem seus rompantes de "rebeldia". Hoje, como estah mais falante e indagador, conseguimos dialogar mais. Eh dificil disciplinar um menino com vontade propria que sabe o seu valor no mundo que vive. Seria muito mais facil dar um "cala-te boca" e dizer "eh assim por que eu estou dizendo que eh". No entanto, nao eh verdade. Explicamos para ele os porques da melhor forma que sabemos. Demonstramos respeito a sua frustracao momentanea, sem ceder quando nao eh possivel. As vezes, temos que analisar a situacao novamente, e num ambiente de respeito mutuo, nao temos vergonha de dizer que erramos. Ele nao confia menos na gente por isso. Acho que isso gera uma cumplicidade humana entre nos. Ele nao nos endeusa como pais, mas sabe que pode contar conosco sempre.
E, como era de se esperar, quando Kiyo encontra-se em situacoes onde nossas "regras" sao colocadas a prova, ele demonstra o que ele realmente aprendeu. Quando ele estah sozinho com outras pessoas e teoricamente poderia ateh "desobedecer" uma regra estabelecida por nos, ele mesmo as impoe corrigindo os outros se for preciso.
Nao, nao somos exemplos de pais perfeitos que acertam sempre. Jah agimos de forma arbitraria com o Kiyo. Jah falamos "eh por que eh". No entanto, dentro da nossa dinamica familiar ha espaco para admitir o erro e assim crescer com o aprendizado que esse erro gerou, transformando maldicao em bencao.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A mae sou eu... o filho eh meu...


Jah ouvi de muitas maes que se sentem (ou sentiram) invadidas quando recebem "aquela" visita de parentes, amigos e afins logo quando o bebe nasce. Fico lembrando de como eu me sentia quando, ainda gravida, tinha a barriga acariciada por todo mundo + a vizinha. No inicio, logo que soube da gravidez, antes mesmo da barriga aparecer de verdade, algumas pessoas se achavam no direito de ficar tocando a minha barriga. Eu pensava: "puxa, que saco! A barriga ainda eh minha, que invasao de privacidade eh essa!" Uma vez quando reclamei pra minha mae, ouvi um sonoro: "Barriga de gravida eh dominio publico, Dani! Nao adianta ficar se sentindo assim." E eu, entao, passei a me sentir mal por nao gostar que tocassem a minha barriga. Fiquei me sentindo egoista, insegura, infantil... Ateh que parei para pensar... mas espera um pouco... a barriga eh minha mesmo. Eu tenho todo o direito de me sentir assim. Nao estou errada e continuo nao gostando.
Hoje em dia, eu continuo achando uma tremenda falta de respeito quando alguem ve uma gravida e jah vem com a maozona (que sabe-se lah onde pegou) pra passar na barriga. E da mesma forma penso sobre pessoas que se acham no direito de palpitar sobre a forma "certa" de criar os filhos assim que enxergam uma mae com bebe novinho nos bracos. Que me desculpem as palpiteiras de plantao, mas eu acho isso horrivel. Conselho eh algo que se dah quando solicitado, e nunca em tom de reprovacao ou desdem.
Para as maes que se sentem mal quando pessoas invadem sua intimidade materna (algumas vezes com a melhor das intencoes), eu digo que nao tem do que se culparem por sentirem-se assim. Eh normal ouvir que maes que nao gostam que as pessoas fiquem pegando seus filhos recem-nascidos sao ciumentas, egoistas e ateh infantis. Eu digo que elas estao exercendo o direito de ser mae. Isso nao eh uma coisa (ou sentimento) ruim. Eh natural, normal e instintivo que a mae recem parida (ou recem cesareada ateh - porque nao) sinta-se assim. Jah tentaram pegar no filhote de uma cadela que acabou de ganhar cachorrinhos? Tolher esse sentimento que eh maior e mais forte do que a gente eh negar a essencia da maternidade. Nesse caso, eu acho que as pessoas que se sentem ofendidas quando uma mae lhe nega a oportunidade de pegar o bebe DELA, deveriam se colocar em seus devidos lugares e respeitar essa mae. Espere, pergunte e se ela consentir, ok, daih entao pegue o bebe. Nunca em momento algum se ache no direito de tomar o bebe dos bracos da mae, pois ela (assim como uma leoa) irah exercer o seu direito de mae e voce vai sair com pelo menos uma boa rosnada!
Beijos a todas...
Dani

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Choro na hora de dormir... deixar ou nao deixar, eis a questao!




Quem tem (ou teve) filho pequeno sabe como podem ser longas as noites em que um bebe reluta para dormir. Junto com tantas duvidas, as mamaes (e papais) recebem inumeros palpites sobre o que fazer e como "treinar" o bebe a dormir a noite inteira desde bem novinho. O famoso "deixar chorar" vai contra o meu grao, contra o meu instinto. Eu pratico cama compartilhada desde que o Kiyo tinha dias, e por essa razao nao sei qual a "outra" maneira de faze-lo adormecer senao deitando com ele para dormir. Devo confessar que ha dias em que eu gostaria muito que ele adormecesse por si soh. Porem, nao trocaria esse tempinho de aconchego por nada nesse mundo. Jah ouvi muitas criticas sobre a pratica da cama compartilhada e tambem dessa "dependencia toda" do Kiyo em mim para dormir. Pessoas das mais diversas partes da minha vida jah vieram me dizer que eu "tinha que deixar ele chorando por um tempo para que ele acostumasse a dormir sozinho". Eu, que ateh entao nao tinha aporte cientifico para explicar nossa decisao de "nao deixar chorando", encontrei!!
A Associacao Australiana de Saude Mental Infantil (AAIMHI) publicou em 2004 (ou seja nao eh tao inovador assim o tema) um artigo alertando sobre os possiveis efeitos mentais da tecnica conhecida no ingles como "Controlled Crying" ou "Choro controlado". O artigo explica que a tecnica eh usada amplamente na tentativa de conter e acalmar bebes (e criancas) que nao conseguem dormir sozinhos ou que ficam acordando durante a noite. A tecnica envolve deixar a crianca chorando por periodos mais longos antes de intervir e conforta-la. A ideia eh que com o tempo a crianca irah conseguir dormir por si soh e nao necessitarah acordar varias vezes durante a noite. No artigo publicado, a AAIMHI expressa sua preocupacao com o uso desta pratica no desenvolvimento psiquico do bebe. Segundo a associacao, a tecnica nao eh consistente com a necessidade do bebe para que ele desenvolva sua saude emocional e psicologica. Esta afirmacao parte do principio da identificacao do choro, sendo que um eh uma forma que o bebe tem de sinalizar algum tipo de estresse (psicologico ou fisico) e outro pode ser simplesmente o choro de "manha" ateh que o bebe se acomode. Partindo do principio que um bebe precisa se adaptar a inumeras mudancas quando nasce, eh normal que ele (ou ela) chore por qualquer mudanca. Deixar um bebe chorando sem conforta-lo causa um estresse ainda maior do que o inicial. Alem disso, deixar o bebe chorando (mesmo que por um periodo curto) pode desestimula-lo a buscar conforto e esperar suporte quando se sentir em "perigo". Segundo o artigo, "bebes a partir do sexto mes de vida passam por varios graus de ansiedade quando separados dos pais. Esta ansiedade continua ateh que eles aprendam que seus pais voltarao quando sairem e que eles estao seguros. Este processo de aprendizagem pode levar tres anos." Os autores ainda vao alem dizendo que, ao contrario do que se pensa popularmente, bebes cujas necessidades emocionais (choro atendido e estresse resolvido) sao atendidas imediatamente, conscientemente e apropriadamente, desenvolvem um apego seguro que traduz na formacao de um adulto emocionalmente saudavel. A longo prazo, criancas que sao atendidas e nao sao deixadas chorando (mesmo que isso seja "monitorado" e "controlado") aprendem a dormir melhor e sozinhas mais rapidamente pois sentem-se seguras sabendo que suas necessidades emocionais serao atendidas.
Ao ler o texto http://www.earlychildhoodaustralia.org.au/pdf/papers/april2003_aaimhi_controlled_crying.pdf, fiquei pensando no Kiyo, nas vezes em que ouvia dizer que estava deixando ele mal acostumado e blablabla. Vendo como o Kiyo age em relacao a nos, e como ele nao tem problemas quando eu tenho que sair trabalhar... nunca menti, fugi ou coisas do tipo. Ele sempre soube que se falamos que vamos voltar tal hora, estamos de volta na tal hora. Sempre buscamos dar a ele uma sensacao de seguranca (nao necessariamente financeira ou material) emocional. Ele sabe, desde que nasceu, que pode acordar no meio da noite e nos chamar que estaremos ali atentos para suas necessidades. Ele sabe tambem que quando estiver pronto para aventurar a noite na sua propria caminha, no seu proprio quarto, estaremos ali se precisar. E ver como ele lida tao bem com as minhas eventuais ausencias temporarias por conta de trabalho e mestrado me faz ter certeza de que escolhi, mesmo que instintivamente, o caminho certo: o caminho do respeito ao tempo dele.
Ele vai crescer e ser o que ele quiser. Por enquanto, ele eh meu menino de quase 4 anos. E por enquanto ele precisa de mim para acalentar seus medos e incertezas. Enquanto isso for o caso, aqui estarei... disposta a acordar 5000 vezes por noite se for preciso.